A adolescência não é fácil para ninguém. Estamos deixando a infância, a fase que tudo o que tínhamos com o que nos preocupar era fazer a continha de dividir e brincar com os nossos brinquedos. Aí vem a fase da vida mais complicada, estamos passando por mudanças drásticas, tanto corporais quanto psicológicas. E não é só você, seus amigos também estão passando pelas mesmas mudanças. Mas nem tudo é uma rosa com espinhos, tem aqueles momentos legais, aqueles momentos de diversão com os amigos, as festas, as paqueras, a descoberta da sexualidade, a liberdade de sair, irmos ao cinema sozinhos ou à lanchonete com a galera.

Essa introdução também poderia servir de sinopse para a nova série original Netflix, 13 Reasons Why (Os 13 Porquês). Com um só porém: o que acontece na série é muito mais pesado do que muitos de nós vivemos em nossos anos como adolescentes. A série tem como protagonistas Hanna Baker e Clay Jensen, dois adolescentes que estudam na mesma escola, estão na mesma classe, mas tem destinos muito diferentes. Ela tirou a própria vida, e ele foi uma das causas para ela ter feito isso. Porque isso aconteceu? Essa é a resposta que a série nos dá, são 13 os porquês de Hannah Baker, uma aparentemente adolescente normal, ter acreditado que tirar a sua própria vida era a única solução que lhe restava.

Advinda de um livro bestseller de mesmo nome escrito por Jay Asher, a série tem como produtoras executivas Selena Gomez e sua mãe Mandy Teefey, juntamente com Brian Yorkey (Grease Live!). Os protagonistas Clay e Hannah são interpretados por Dylan Minnette e Katherine Langford, respectivamente. E ainda conta em seu elenco nomes como Kate Walsh (Grey’s Anatomy) no papel de Mrs. Baker, mãe de Hannah, e Alisha Boe (Atividade Paranormal 4) como Jessica, amiga de Hannah. Mas agora que você já sabe do que a série fala e quem está nela, vamos ao que interessa.

Os 13 Porquês não é uma série fofa sobre a adolescência, ela não somente trata das dificuldades dessa fase, ela nos mostra como ela pode ser cruel, pesada e triste. Todos sabemos que o High School (ensino médio) americano, é bem distinto do que temos aqui, não só pelo sistema educacional diferente, mas pelo peso que ele tem na futura vida adulta desses alunos. Muitas responsabilidades como tirar ótimas notas, estar em algum tipo de atividade extra-curricular como esportes, clubes de matemática, líderes de torcida, para conseguir entrar em uma boa faculdade. E isso tudo gera segregação, grupinhos de pessoas, os populares, os nerds, os quietos, os esportistas, os ‘não to nem ai pra nada’, entre outros. E isso vai moldando as suas personalidades.

Hannah era só uma garota normal passando por essa fase, era estudiosa, boa filha e trabalhava no cinema local. Mas tudo mudou no momento em que decidiu ir à uma festa, como ela mesma diz em sua primeira fita, que tudo mudou quando ela viu aquele sorriso. O sorriso em questão era de Justin Folley, o garoto popular, jogador de basquete, que tinha um sorriso lindo e encantador, e que, quem diria, se interessou por ela, uma simples garota normal. A partir daí a história de Hannah vai se complicando, a cada fita ela vai revelando um nome, e junto desse nome as ações que essa pessoa tomou para com ela, que inevitavelmente a levaram a cometer suicídio.

Assisti a série em duas madrugadas, e a cada episódio eu ia me aprofundando cada vez mais nesse universo. Lembra que eu disse que a série mostra algo muito mais pesado do que muitos de nós passamos na adolescência? Alguns dos assuntos abordados são tópicos como bullying, assédio sexual, preconceito, difamação, misoginia e estupro. Muitos desses problemas são desconhecidos da maioria de nós enquanto adolescentes, então nem sempre vamos entender o que o outro passa, porque são coisas pelas quais não passamos. E é exatamente isso o que a série nos mostra.

“Ninguém sabe com certeza o quanto de impacto temos na vida de outras pessoas. Frequentemente, não fazemos a mínima ideia. Ainda sim, nos forçamos mesmo assim.”

Minha adolescência foi bastante normal, eu era uma garota quieta e nerd assim como Hannah, não tinha muitos amigos, e como me mudei muito de escolas, sempre tinha que começar amizades novas, e deixar as antigas. Também, como Hannah, sofri bullying. Eu era baixinha (ainda sou rs), usava óculos (ainda uso), e aparelho dentário. Era chamada de quatro olhos e boca de lata, às vezes me davam tapa na cabeça, e me lembro até hoje de um apelido que tive, Formiguinha Amassada.

Eu sei que parece inofensivo, e na maioria das vezes até é, porém se você passa por isso todos os dias durante toda a sua adolescência, isso pode acabar te afetando. Mas hey, o que eu passei nem se compara ao que Hannah passou, e mesmo sem saber o que é viver aquilo, eu me coloquei no lugar dela e senti a dor que ela sentiu. E creio que muitas pessoas ao assistirem também tenham esse mesmo sentimento.

Por se tratar de uma série, a gente acha que vai ser uma história bonitinha sobre um acontecimento trágico, ledo engano. A série aborda todos aqueles assuntos pesados de forma prática e direta, e sem romantizar nada e nem esquecer de mostrar que tudo o que aconteceu com Hannah foi errado e triste, e que apesar de não acontecer com a maioria das pessoas, muitas outras passam por aquilo, e muitas delas cometem suicídio por acharam, assim como Hannah, que essa é a única solução.

A série mostra como uma simples palavra ou frase pode causar muitos danos na vida de uma pessoa. Como uma simples foto interpretada fora do contexto pode fazer com que as pessoas acreditem que você é alguém que você não é. Que bullying por menor que seja, é agressão, e é errado. Mostra que a vítima nunca é culpada, e que o único culpado é o estuprador, ou o abusador. E, ah, como precisamos dessa consciência.

Viver em uma sociedade machista, misógina, patriarcal, que trata mulheres como se fossem objetos, pessoas menos qualificadas, que não tem opinião sobre seus corpos e suas vidas, não é fácil, e isso precisa ser mudado. Precisamos falar, precisamos pra ontem. Seja em formato de série, filme, programa de televisão, livro, ou numa conversa de bar ou como assunto de aula. O bullying, o estupro, o preconceito, precisam ser parados.

Por fim, ao chegarmos ao último episódio, entendemos os porquês de Hannah ter tirado a própria vida, mas ao contrário do que se imagina, também vimos o quão errada foi a sua decisão. Porque ela não só tirou a própria vida, e acabou com o seu sofrimento, ela, ao fazer o que fez, acabou por afetar a vida das pessoas que a afetaram. E mais, trouxe sofrimento para seus pais, o que ela em nenhum momento pensou antes de se suicidar. Com isso, é passada uma mensagem de que o suicídio não é a solução, e que, por pior que tudo esteja, o seu sofrimento pode acabar, mas o de outras pessoas pode estar apenas começando.

 

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