É curioso, engraçado e maravilhoso ao mesmo tempo como BoJack Horseman evoluiu depois da sua primeira temporada, se no seu inicio essa série parece só mais uma animação adulta típica e comum como tantas outras que vemos por aí, ela logo foi se revelando uma série emocionalmente rica e triste como poucas e que não tem vergonha de explorar temas espinhosos da nossa atualidade. E entrar á fundo neles explorando vários aspectos da tragédia humana indo de abuso, pais abusivos e o ciclo de abuso que existe em várias famílias, depressão, preconceito, machismo, falta de auto–estima, alcoolismo, auto–destruição, como a obsessão com o corpo pode ser perigosa e prejudicial. Os bastidores mais sujos de Hollywood, armas, a falta de segurança que uma mulher sente, paternidade, maternidade, solidão, aborto, assexualidade, entre muitos outros, e olha que eu só estou tentando falar dos temas que foram abordados nessa temporada, se eu me aprofundar falando das outras, esse texto ficaria muito maior.

BoJack Horseman quebra qualquer preconceito que você poderia ter com uma animação estrelada por um cavalo falante apresentando um estudo de personagem extremamente profundo e emocionante, ao mesmo tempo que é cheia de criticas sociais muito bem colocadas e com uma das visões mais certeiras da indústria do entretenimento que eu já vi em qualquer produto áudio–visual. E mesmo com todo esse peso dramático, BoJack Horseman ainda consegue ser extremamente engraçada do seu jeito unicamente sarcástico e critico, podemos ver isso nessa temporada em vários momentos como nas piadas certeiras sobre Josh Radnor (o Ted de How I Met Your Mother) e Jared Leto, ou nas interações dos personagens. Mas pra mim onde ela se sobressai nos momentos mais dramáticos mesmo, estranhamente de uma forma bem positiva. É isso que faz BoJack Horseman ser uma série tão completa. Bem, agora, vamos á temporada.

“Onde está o BoJack Horseman?” é a pergunta central do marketing da Netflix sobre a quarta temporada, mas na própria série isso é tratado de forma muito diferente, o que dá á entender pelo trailer da temporada. Sim, no primeiro episódio da temporada, BoJack não aparece. Ninguém sabe onde ele está; nem a sua amiga e antiga “paixão”, Diane (Allison Brie); nem o seu ex–colega de quarto, Todd (Aaron Paul), nem mesmo o seu melhor amigo e vizinho, Channing Tatum (assistam a temporada e vocês vão entender): O quase indicado ao Oscar e ex–estrela de TV BoJack Horseman (Will Arnett mais uma vez brilhante como sempre no papel) não está no primeiro episodio além da sua voz em uma gravação na caixa postal que é ouvida por Diane. Porém essa pergunta já é rapidamente respondida no segundo episódio da série e logo ganhamos o nosso amado e problemático cavalo favorito de volta, mas a pergunta central da quarta temporada é muito mais existencial do que parece. BoJack sempre esteve á deriva e agora está afundado nela buscando por alguma luz de esperança. Enfrentando e temendo um mundo que sempre pareceu confuso e triste, BoJack está preso em um clico de auto–destruição sem sentido. Ele bebe, usa drogas, sai com várias mulheres e festeja para aliviar essa dor e esse vazio que existe dentro dele, mas esses hábitos só causam mais danos. Sua existência é um grande mistério que ele tem a necessidade de resolver, e a quarta temporada coloca luz nesse mistério explorando como muito de quem BoJack é consiste nas raízes de sua própria família. Se na primeira temporada BoJack procura o amor em lugares errados, na segunda ele finalmente o encontra mas tenta ignorar seus problemas sob um falso véu de positividade, e na terceira temporada ele finalmente afunda em uma espiral de auto–destruição tendo que lidar com os seus piores demônios e seus grandes fracassos ou erros.

E na quarta temporada finalmente vamos á fundo na mente de BoJack explorando de onde ele vem, quem é ele, o que se passa na sua cabeça (literalmente), os efeitos devastadores que o tempo teve pra ele, além de conhecermos á fundo as suas origens e a sua família, o ciclo de abuso ao redor dela, especialmente a sua mãe cruel Beatrice (Wendie Mallick, um dos destaques da temporada), já que nessa temporada finalmente temos conhecimento que ela própria é vitima de um lar extremamente problemático e de uma vida triste. E então, no meio de tudo isso, vemos BoJack ganhando uma esperança e uma luz no fim do túnel na forma de Hollyhock Manheim-Mannheim-Guerrero-Robinson-Zilberschlag-Hsung-Fonzerelli-McQuack (Aparna Nancherla, que entra na série casando completamente com o resto dos personagens), uma jovem que supostamente é a sua filha.

A trama central da quarta temporada é BoJack tentando lidar com a sua família, mas a série se expande além do seu protagonista. Existem arcos e tramas paralelas pra todos os cinco personagens principais da série: o Sr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) correndo pra se tornar governador, e Diane tentando lidar com os seus sentimentos sobre isso; Todd, se descobrindo como alguém assexuado, e tentando saber o que isso quer dizer; a Princesa Carolyn (Amy Sedaris) tentando ter um bebê com o seu namorando Ralph enquanto tenta expandir a sua carreira profissional. Acompanhados desses personagens, ganhamos uma série de participações especiais maravilhosas que vão de RuPaul Charles, Paul Giamatti, Sharon Horgan, Felicity Huffman, Vincent D’Onofrio e Zack Braff, e com destaque especial pra ótimas participações de Andre Braugher, Matthew Broderick, Jane Krakowski.

A meu ver o maior acerto da quarta temporada é a forma que ela desenvolve e aprofunda os personagens. O arco da Princesa Carolyn ganha contornos comoventes, a relação de BoJack com Hollyhock é perfeita, vemos uma pequena e certa mudança em BoJack que é natural e nunca soa forçada, e finalmente o ponto alto dela é ao desenvolver a família de BoJack e sua mãe em vários flashbacks durante a temporada, no episodio 2 e no penúltimo episodio. Isso chega ao auge no episodio “Time’s Arrow”, o episodio 12 da temporada, o penúltimo episodio, que além de ser pra mim um dos melhores episódios de qualquer série de 2016, é o melhor episodio da historia BoJack Horseman na minha opinião.Nesse episódio, é mostrado o resto do passado da mãe de BoJack, Beatrice, que já havíamos visto no segundo episódio, nesse episodio entendemos á fundo porque ela é como é e como a sua vida horrível resultou em um ciclo de abuso e sofrimento que resultou em uma família disfuncional e indivíduos extremamente problemáticos, vemos isso observando o passado de Beatrice, sua vida familiar, como ela conheceu o pai de BoJack e ele acaba com uma reviravolta e um plot twist de dar inveja em muita série por aí.

Somado á tudo isso, temos todas as marcas que fazem “BoJack” ser o que ele é – as piadas visuais de fundo, os trocadilhos envolvendo animais, a critica social e os momentos brutalmente dramáticos e tristes – porém essa temporada consolida pra mim a série não apenas como uma das melhores séries originais da Netflix, talvez a melhor, mas também como uma das melhores séries da atualidade na minha opinião.

PS: Apesar da dublagem brasileira prejudicar um pouco a tradução de algumas piadas, devo destacar também o trabalho dos dubladores brasileiros da série, em especial o dublado Hércules Fernando que faz um belo trabalho dublando o personagem título.

NOTA: 10

 

 

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