Comecei a assistir Big Little Lies com muita desconfiança. Apesar de focar estritamente em um universo feminino, o que é muito, mas muito legal e necessário hoje em dia, esse universo a primeira vista me pareceu um tanto fútil e raso. Mulheres brancas com uma unica função na vida, ser mãe, donas de casa, que encontram na disputa por status um jeito de passar o tempo.

O episódio piloto me surpreendeu, apresentando logo de cara com o uso de flashforward um assassinato que aconteceria em uma festa da escola infantil, sem mostrar a vítima ou o assassino. A clara intenção de deixar os personagens principais de fora das cenas de depoimentos te obriga a temer por eles enquanto os conhece ao decorrer do episódio e buscar em suas personalidades motivos para matar ou morrer ao longo da temporada.

Ao contrário do que eu já tinha criado na minha cabeça, às personagens apresentadas eram um pouco mais intrigantes e profundas do que eu havia imaginado. A narrativa, a edição e fotografia foram muito competentes em criar um universo atraente e misterioso o suficiente para me manter presa a história até que eu decidisse se estava gostando ou não. O que demorou pelo menos três episódios. Mas já chego lá, primeiro vamos as personagens, começando ao trio de protagonistas que não poderiam ser mais diferentes, mas que se juntaram por acaso.

Madeline(Reese Whiterspoon) é a líder e Reese está nada menos do que perfeita ao interpretar uma mulher energética, que cuida das amigas, que quer saber de tudo e sem freio, uma Regina George menos maldosa e mais carismática. Conhecemos Madeline em um momento em que seu casamento passa por problemas por causa do ex e sua atual. Que ela começa a cair na real que seu papel de mãe está quase no fim, que suas filhas estão crescendo e logo não precisarão tanto dela.

Jane (Shailene Woodley) é a recém chegada a Monterrey com seu filho, a mãe solteira que tem escrito na testa que precisa de ajuda. Que diferente de cem por cento das outras mães não vive uma vida luxuosa. E que esconde um segredo que está diretamente ligado a identidade do pai de Ziggy. Os flashbacks milimetricamente editados e seus pesadelos são os mais misteriosos. Woodley parece meio fora do tom no papel de mãe no começo, mas logo você compra a ideia de que aquela garota não tinha como plano de vida se tornar mãe.

Celeste(Nicole Kidman) é aparentemente o ser mais perfeito de Monterrey, de vida, marido e filhos(gêmeos) perfeitos. Mulher que deixou a vida profissional para engravidar e cuidar da família. Um clichê de comercial de margarina se não fosse por um grande problema, um grande segredinho sujo, a relação violenta que tem com o marido.

Renata (Laura Dern) é a mãe rival, que não faz parte co clubinho de Madeline na escola onde seus filhos estudam, uma mulher de negócios que leva a disputa para a vida pessoal e faz da nova vida de Jane na cidade complicada após sua filha acusar o filho de Jane de atacá-la. Bonnie (Zoë Kravitz) é a nova esposa do ex marido de Madeline e melhor amiga de sua filha adolescente. Ela é bem diferente de todas as mulheres de Monterrey, de rotina e pensamentos alternativos, o que faz a convivência dela com Madeline ainda mais tensa. Fora isso ainda tem uma evidente tensão racial entre Bonnie e a comunidade predominantemente branca.

Como disse, mulheres em conflito, mas minha desconfiança e curiosa diante de personagens tão promissoras logo deu lugar ao desconforto. Isso por que a história de Celeste é inicialmente mostrada de um jeito que não deixa claro se ela gosta da agressividade de Perry (Alexander Skarsgård) ou não. O casal transborda sensualidade e química, o que causa inveja nos amigos e parece que de inicio, de inicio, que o temperamento de Perry é um tempero, um gatilho para a vida sexual e conjugal do casal. Pensei em largar a série ali, mas então as peças começaram a se encaixar, os papeis a ficar mais claros e tudo fazer mais sentido.

De forma muito inteligente e coesa Big Little Lies mostrou nos colocando no lugar de Celeste o que é uma relação abusiva e violenta, o que é não ter certeza de estar vivendo uma, o despertar e a busca por ajuda. Nicole Kidman que nunca foi uma das minhas atrizes preferidas se entregou a personagem de uma forma tão bonita, emocionalmente e fisicamente que me surpreenderá se não estiver pelo menos indicada as próximas premiações.

A trilha sonora foi com certeza um dos personagens principais em Big Little Lies, um dos recursos que os leitores do livro homônimo de Liane Moriarty infelizmente não tiveram. Chloé, filha mais nova de Madeline é uma versão mirim de Peyton Sawyer(One Tree Hill) e é ela quem na maioria das vezes dá o tom com suas escolhas. Como em uma cena em que coloca Leon Bridges para que seu coleguinha Ziggy peça desculpas a Annabele, ou, prepara um playlist para que sua irmã que está saindo de casa se lembre dela. De Elvis Presley, Jefferson Airplane, Alabama Shakes a Janis Jolin, a trilha sonora de Big Little Lies já é a melhor(não original) de 2017 e um primor de escolhas que você precisa escutar.

Confesso que quando a série chegou a series finale eu já havia me esquecido que tínhamos um crime para resolver, culpa do roteiro cuidadoso e da incrível construção das personagens. Então fui lembrada de que alguém seria assassinado e não ficou tão difícil imaginar quem seria a “vitima”. Esperei algo brutal, afinal estava assistindo uma produção HBO, portanto a carta para atravessar certos limites é branca. Só que fui surpreendida da melhor maneira possível. O final juntou as cinco mulheres em conflito, a relação abusiva de Celeste e usou uma coisa para consertar a outra. As diferenças de Madeline, Jane, Celeste, Renata e Bonnie desapareceram quando todas se viram obrigadas a defender uma delas de um marido violento.

Foi tocante! Foi emocionante! Foi um tapa na cara de quem assim como eu achou que tudo era tão simples como parecia, tão claro, preto no branco e irremediável.  O poder de um bom elenco, uma boa direção e edição fez da cena em que apenas com apenas uma troca de olhares, sem a necessidade de dialogo, a identidade do pai de Ziggy fosse revelada a melhor cena de toda a temporada. O sentimento coletivo de que todos os problemas eram um monte de nada diante do perigo físico que uma delas estava correndo foi o fechamento perfeito para uma história que não precisa continuação. Que se propôs a contar uma história e contou da melhor maneira possível.

Assista para descobrir quem morreu, quem matou, mas assista para conhecer essas cinco mulheres e suas histórias.

E ouça a trilha sonora!

 

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