Por algum motivo que não entendi ainda, a MTV quase não divulgou a primeira temporada de Sweet Vicious. É estranho que no momento em que o empoderamento feminino ganha cada vez mais força, não tenham feito uma mega campanha para que o público assistisse sua nova produção, mesmo que apenas por audiência, por números e não pela importância e proposta a que a série se compromete a passar.

Descobri Sweet Vicious graças a um site desses que todo seriador conhece, que hospeda episódios de todas as séries existentes. Fiz o que somos ensinados a não fazer desde crianças, julguei pela capa, no caso o pôster, que tinha um punho cerrado com um soco inglês, com o nome da série em uma fonte pink. Julguei e é claro, amei! Tanto que corri para saber do que se tratava, já que nunca tinha assistido uma promozinha sequer ou a MTV promovendo em seu twitter.

Enfim, foi meio que amor à primeira sinopse. E olha que nunca, nunquinha mesmo confiei em uma sinopse. Mas “comprei” como se eu e SW fôssemos um casal de comédia romântica, destinados a nos encontrar e corri para assistir o primeiro episódio. Afinal, não é todo dia, toda fall season que uma série com duas vigilantes que caçam estupradores do campus da universidade estreia. Corri. OK, vi o trailer primeiro, o que só aumentou minha vontade de assistir.

E como é bom quando a realidade dá uma lavada nas expectativas, certo?

A produção tem um visual abertamente focado no público jovem, com cenários coloridos de fraternidades americanas, elenco ridiculamente bonito, bem MTV e pra muitos isso pode ser um motivo pra fechar o player e ir fazer alguma coisa de adulto. Mas logo entendi que essa é a intensão: te mostrar aquele mundo quase Barbie Malibu de universitários sorridentes pra então te fazer ver que a real história está nas entrelinhas, é no escuro de um quarto trancado, num táxi, é quando ninguém está olhando que o que importa está acontecendo.

Jules é uma universitária linda, loira, de fraternidade, de vida perfeita e popular. Pelo menos aparentemente, porque de noite ela coloca uma roupa preta e vai atrás de estupradores que a diretoria/reitoria deixou escapar por não saber, ou, não querer lidar. Ela é a menina doce de dia que tenta conseguir um pouco de justiça e sim, vingança, de noite. Sim, como muitas garotas, ela também é uma sobrevivente de estupro.

Ophelia por outro lado é o oposto de Jules, ok, ela também é incrivelmente inteligente, mas vai na contra mão da garota popular de fraternidade e usa suas habilidades de hacker para uso próprio e não acadêmico. É sarcástica e vê a universidade como uma obrigação. Ela é o que muitos chamam de desperdício de intelecto ambulante, não se enquadra nas regrinhas básicas da sociedade e nunca sentaria junto com Jules na mesma mesa no segundo grau.

Porém, em uma noite de vigilância de Jules o caminho delas se cruzam e é ai que toda a mágica começa. Se você é um ser humano, você vai sentir empatia. Agora, se você é mulher, com certeza vai urrar de prazer cada vez que Jules e Ophelia vão atrás de um alvo. Ainda mais quando você é um pouquinho consciente ou minimamente informado e sabe que os números de casos de violência sexual em universidades americanas são absurdamente altos. E mais, que as universidades, visando apenas manter o nome, aparência e principalmente o lucro de cada novo aluno, preferem fechar os olhos e muitas vezes combater as denúncias feitas.

Aconselho vocês a assistirem o documentário The Hunting Ground, que está disponível na NETFLIX e que mostra a vida de algumas sobreviventes e da luta que foi para cada uma delas conseguir denunciar. E mais… que suas denúncias fossem levadas a sério pelas universidades em que estudavam. É real, lá você pode conhecer o assunto, as estatísticas e o estrago na vida de cada uma.

E Sweet Vicious conseguiu passar boa parte disso em seus dez primeiros episódios. Esse abandono, o desamparo das vítimas e principalmente a quantidade de casos. Para alguém que não sabe dessa realidade é muito fácil assistir e achar ridículo o número de garotos que Jules e Ophelia caçam na mesma universidade. Mas não é… é realidade. Em certo momento do episódio piloto, Ophelia leva Jules a um dos banheiros femininos do campus para mostrar a ela um mural feito pelas vítimas, com pequenos recados anônimos para todas as estudantes com nomes dos seus estupradores e das fraternidades deles. Me lembrou muito uma cena do documentário, onde uma das vítimas, se sentindo sozinha, descobriu outras tantas apenas falando sobre o assunto.

Sweet Vicious tem um roteiro razoavelmente simples, diria que muitas vezes previsível. Tem também uma linguagem muito fácil de ser compreendida, visando principalmente o público adolescente. Só que quando ela precisa falar sério sobre o seu tema principal, acerta e muito no alvo. Mulheres violadas sem o seu direito de sequer dizer, gritar para o mundo o que lhes aconteceu, enquanto os abusadores são superprotegidos e incentivados a seguir com suas vidas.

Além disso, mostrar o estrago na vida de uma garota ou mulher ao ser vítima de abuso sexual, ainda mais quando ela não tem a justiça ao seu lado.

A evolução de Jules serve para nos fazer enxergar e entender como não é fácil, que não existe fórmula mágica e nem romantizada para superar, mesmo que numa série da MTV. A certa altura da temporada é feito um episódio de flashback para mostrar a história dela e já é um dos meus episódios preferidos do ano. A forma simples e crua com que foi mostrado o seu estupro é assustador, e a confusão dela ao lidar com o que aconteceu em seguida, de partir o coração por imaginar as centenas de meninas que não fazem ideia de que sofreram, estão sofrendo abuso ou pior, que se culpam por isso.

 

Mas por mais partido que meu coração estivesse ao assistir e conhecer a história de Jules, foi inspirador.

Sweet Vicious não é só pra te mostrar o mundo bosta em que as mulheres vivem, mas para deixar claro que mulheres precisam e tem o direito de bater de volta, ainda mais se for para fazer isso juntas. A sonoridade é com certeza um dos pontos fortes da série. Jules poderia chutar bundas sem Ophelia? Poderia sim, tanto que estava chutando. Mas é muito melhor com a amiga de cabelos verdes do lado, ainda mais porque assim ela pôde dividir com alguém o seu segredo e sua dor.

Ophelia tem história, personalidade e desenvolvimento próprio, mas é de aquecer o coração que ela estivesse lá para Jules quando Jules passou por todas as fazes do seu luto particular. Ninguém precisa passar por um trauma desses sozinho e a série é muito feliz em dizer isso.

 

 

 

 

Ophelia lidou com a dor de Jules da maneira que o mundo deveria lidar. Com empatia, respeito, espaço na hora certa, um braço na outra, sem vitimizá-la, muito menos julgá-la, incentivando a amiga no caminho da recuperação, mas entendendo seu tempo e o misto de sentimentos que alguém naquela situação sente. Ophelia representa todas as mulheres que não passaram pela situação, mas que não olham para o outro lado, que se solidarizam, que fazem alguma coisa pela outra, mas sabendo qual é o seu lugar. É emocionante e bem tocante. Desde Peyton e Brooke de One Tree Hill (que bateram muita cabeça por causa de homem até aprenderem a se amar simplesmente) eu não me identificava tanto com uma amizade entre mulheres.

É claro que, como estamos falando de uma série, a história tem que se movimentar, tanto para desenvolver seus personagens quanto para manter o interesse de quem está assistindo. Então, Jules e Ophelia passam por altos e baixos durante a primeira temporada, e particularmente, acho isso ótimo, afinal elas passaram de duas desconhecidas a parceiras no crime em apenas um episódio e as personalidades são diferentes demais para a convivência ser tão linda logo de cara. Os conflitos foram importantes para criar laços entre elas, para solidificar a causa e as motivações para continuar chutando bundas, ajudando a devolver a sensação de segurança de garotas obrigadas a conviver com seus estupradores no campus da universidade.

sweet vicious

A primeira, e espero que tenha sido a primeira de muitas temporadas, serviu também para experimentar muita coisa. Como disse no começo, algumas resoluções de roteiro são óbvias demais e talvez seja para não pesar a mão, deixar a série mais acessível ao grande público. E de forma alguma isso é um defeito. Talvez para levar o tema para a TV tenham achado que o resto precisava ser um pouco mais mastigado, eu entendo. Mas caso Sweet Vicious seja renovada, será possível amadurecer a história, expandir um pouco a “chutação” de bundas para além dos campus universitários. O último episódio abre um leque enorme de possibilidades, e como sabemos, existem mulheres nessa situação em todos os ambientes da sociedade, não só no universitário, que a série se propõe a explorar.

Fica a dica e também o meu muito obrigada, MTV. Por investir em uma produção feita por mulheres, para inspirar mulheres, e ensinar e conscientizar os não mulheres. Sweet Vicious é a série que eu queria ter assistido quando adolescente, que gostaria que minha filha e sim, meu filho, caso os tivesse, assistissem também.

Assistam!

 

 

 

 

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