3% estreou carregada de uma grande expectativa. Eu particularmente estava ansiosa para ver uma boa história de ficção cientifica, passada em um futuro distópico. criada e produzida por brasileiros. Quis muito que a série correspondesse e mostrasse que brasileiro sabemos sim fazer ficção cientifica ou no mínimo que podemos nos acostumar a consumir nosso próprio produto, contanto que produções de boa qualidade sejam feitas.

Então ela estreou e eu e muita gente logo percebemos que ela tinha problemas. Às redes sociais foram inundadas de comentários, às pessoas começaram a ver logo que a NETFLIX Brasil disponibilizou os oito episódios e as opiniões imediatamente se dividiram. Alguns amaram de cara e não se apegaram ou não se importaram com os detalhes e outros começaram a assistir com cautela… Ok, alguns torceram o nariz para a temporada inteira nos dois primeiros episódios, mas essas pessoas não contam aqui.

Eu fui com a segunda galera e comecei a maratonar com cautela, apesar da alta expectativa. Ainda mais quando ficou tão evidente no primeiro episódio de que se tratava de uma produção em desenvolvimento. Com defeitos gritantes e uma dificuldade bem clara em contar uma boa história.  Tirei o pé do acelerador e entendi sim que 3% se tratava de uma produção totalmente experimental e que se tinha sim o direito de errar na busca de um ritmo e identidade própria.

Em todas as críticas existe um ponto em comum. A atuação do elenco, tanto jovem quanto experiente parece engessada nos primeiros episódios. Cesar Charlone é um diretor experiente e reconhecido, mas fica bem evidente no inicio de que faltou um pouco de direção, um pouquinho mais de tato e carinho para guiar os atores. Você assiste e não vê personagens indo para o seu grande momento, que falarei daqui a pouco, mas vê atores interpretando personagens que estão indo… Entende? Ficou difícil me apegar ou criar qualquer tipo de empatia por que faltava emoção nas motivações. Não adianta um universo ser explicado se ele falha em mostrar os elementos. Não encaixa.

Essas criticas negativas eram bem justas e para algumas pessoas uma série estreante que não começa bem pede para ser deixada, o que também acho justo. Mas se formos ver, pensar e julgar 3% as criticas se tornam injustas por que a partir dos primeiros episódios as peças, interpretações, direção e roteiro começam a andar juntos, vão se aproximando e se encaixando. Todos ficam a vontade em seus papeis e isso me fez embarcar na história e ver o que realmente estavam me mostrando.

Várias comparações foram feitas com Jogos Mortais, Divergente e tantas outras sagas de futuros diatópicos, mas quanto mais assistia 3% mais fui enxergando da nossa própria realidade nela, do nosso dia a dia como brasileiros. Onde a segregação é tão evidente, mas mesmo assim somos condicionados a acreditar que é nossa culpa, que marginalizados não são merecedores de nada além da miséria. Na série cada cidadão quando chega aos vinte anos ganha o direito de passar por um processo e apenas três por cento são selecionados para deixar a estrema pobreza em que vivem para ascender ao Maralto, onde uma sociedade superior e cheia de oportunidades, chances e conforto espera os poucos que conseguem passar.

 

3%

 

“Você é merecedor do seu próprio mérito” é a frase dita aos que chegam para o Processo e é desconstruída conforme vamos nos aprofundamos em cada etapa. A corrupção para manter um lado subjugado enquanto seus melhores três por cento são levados para o onde o poder mora. A lavagem cerebral no continente, a promessa de salvação travestida de meritocracia.  É a nossa realidade diante dos nossos olhos. A tecnologia não tão avançada do lado do Maralto ajuda a deixar tudo mais real e palpável. O que para muitos foi mais um ponto fraco, para mim é algo para me apegar e me identificar.

A narrativa escolhida também é um ponto que vai para a coluna dos prós. Acompanhar um grupo em especial e completamente diversificado passando por cada etapa é perfeito para apresentar a maquina que faz o continente e o maralto funcionando. Apesar de algumas soluções fáceis demais de roteiro nós passamos pelos testes junto com os candidatos, ainda mais sabendo que o processo não é tão justo e divino quanto dizem ser. É impossível não se perguntar em alguns momentos se você teria emocional, inteligência ou força para fazer aquilo. Eu por exemplo acho que teria ficado na primeira entrevista.

3% não é perfeita, longe disso, alguns defeitos no inicio da jornada deixaram uma impressão ruim em muita gente, mas a série não se acomoda em criar uma cópia ou uma versão genérica das distopias atuais. Ela te obriga a sair da própria caixinha e isso sim é mérito. A NETFLIX pelo jeito enxergou as qualidades e potencial nessa produção e renovou a série, o que ao meu ver é motivo para se comemorar. O final do oitavo episódio poderia ser um final para a história, um bem lúdico e a gosto do freguês, mas uma segunda temporada é uma possibilidade de algo mais concreto e maior. Contanto que olhem para o seu começo e consertem o que não deu certo. Uma história fascinante pode estar sendo contada.

Assistam!

 

 

 

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