Não li o livro do qual 13 Reasons Why foi adaptada, não conhecia a história de Hannah Baker, mas apesar disso esperava a estreia da nova produção com grande expectativa. Então por isso, ou, apesar disso, de não ser um universo que já conhecesse, me apeguei imediatamente ao que Hannah começou a me contar.

Não que tenha sido uma vitima de bullying, tive sorte(sorte?é estranho achar que tive sorte) durante o ensino médio, mas me lembrei de como pequenas coisas, acontecimentos podem ser determinantes para o isolamento ou não de alguém. A solidão de não se encaixar, ou, de se forçar e se adaptar em um mundo cruel só para não ser deixado de lado. De todos os modos, você nunca passa ileso pelos anos do ensino médio, seja no nível que for, tenha a sorte que tiver.

13 Reasons Why conta de forma muito crua a história de Hannah Baker, garota que tirou a própria vida depois de sofrer bullying, perseguição, decepções, assedio moral e sexual de seus colegas de escola. Ela é a grande motivação, o simbolo inevitável do ambiente cruel dos corredores dos colégios tipicamente americanos, da incompetência e insensibilidade adulta diante de adolescentes que se destroem apenas por que podem e de centenas de pessoas que passaram, passam e que com certeza passarão pelos mesmos dramas. Hannah deixa sete fitas, com 13 motivos que a levaram desistir da vida, que somados fizeram dela alguém tão quebrada e sem esperanças que o suicídio foi a unica saída.

Clay é o protagonista. A história começa quando ele recebe as fitas e é através dele que conhecemos Hannah e apesar de achar que é dada a Clay uma imagem muito romantizada no inicio da temporada, que o que ele fez a Hannah deixando ela sofrer sozinha é tão grave quanto quem a magoou de propósito, tenho que admitir que o personagem tem uma grande evolução no terceiro ato. Ao contrário dos outros nomes nas fitas, Clay não se acomoda ao saber de cada razão, com sua parte na morte de Hannah. Ele nega Hannah várias vezes enquanto ela é humilhada e perseguida, ele nega várias vezes depois que ela se mata, mas depois de obrigado por ela a confrontar cada uma dessas vezes ele amadurece.

A narrativa é muito bem construída, revesando da imagem apaixonada que Clay tinha dela, para a verdade que a própria Hannah nos mostra, a verdade dela e essa é a mais difícil de acompanhar. É forte, não é uma série fácil de assistir, ainda mais sabendo que não importa o que façam ou o quanto se indignem, a história de Hannah não terá um final feliz. E saber o quão fácil seria consertar e salvar Hannah só faz tudo ainda mais pesado. Te faz pensar se algum dia deixou alguém magoado ir embora da sua vida, alguém ser distratado pelo rebanho para não chamar atenção para si, se você desistiu de uma amizade e te força a imaginar no peso que isso possa ter tido na vida dela.

13 Reasons Why ainda levanta um ponto muito, mas muito importante que transcende os corredores de um colégio, mas que muitas vezes começa ali. O machismo contra meninas em formação, no estigma sexual usado para destruir suas imagens, forças e auto-estima. Dói na carne escutar duas personagens diferentes dizer “você sabe o que acontece quando uma garota tenta conseguir ajuda?” e  “neandertais(atletas) ouvem que são a unica coisa de valor da escola, que o resto de nós(meninas) está lá para torcer por eles”. Meninos ensinados por adultos frios que podem tudo, que não existe limites para eles e que meninas que são decorativas ou obrigadas a dizer sim. A consequência são garotos violentos, cruéis e meninas com confiança minadas e submissas por uma vida inteira ou que passam ou que encontram no bullying uma forma de sobreviver.

Você pode assistir e até pensar que Hannah é a garota mais azarada do mundo, ou que alguma das coisas que aconteceram não são tão graves assim, mas ao final, quando Hannah  conta a ordem com que gravou as fitas e o que cada um destruiu dentro dela é fácil compreender que quando você está de coração partido alguém que roube a sua alegria, seja num simples gesto, pode estar roubando a sua vontade de viver, a unica coisa que te mantem de pé. Por isso que a grande sacada da série, que é conscientizar o publico de que tudo conta, o modo como nos tratamos, ensinamos e cuidamos um dos outros é muito bem desenvolvida.

Ainda mais por que existe aqui a preocupação de construir um pano de fundo para cada personagem, cada bullie. Eles não são apresentados apenas como vilões, o que não tira a responsabilidade, mas que de certa forma nos mostra por que eles são assim, por que fazem ou por que foram transformados nesses adolescentes capazes de coisas tão insensíveis e abomináveis. Nem tudo é preto no branco, nem tudo é tão claro e fácil de interpretar se você não conhece todas as peças do que é a vida desses jovens. O elenco jovem segura cada história de forma espetacular, dando todas as camadas que seus personagens pedem.

Fácil de entender somente que padrão de comportamento atual não funciona mais. Que cartazes contra suicídio não adiantam nada depois que uma aluna já se matou, que violência sexual é inaceitável se você não ensina garotos a respeitar garotas e a não estuprar. Isso faz parte da realidade deles, nossa, de qualquer pais, de qualquer classe. Fingir que está tudo bem enquanto ignoramos a origem de cada problema só piora.

Conforme os episódios passam o tom da história fica mais pesado, o efeito borboleta fica mais claro e o choque de realidade com o momento do suicídio de Hannah é doloroso. Quando você terminar, caso não tenha terminado, saiba que a série ficará na sua cabeça por um bom tempo. Não precisa ser um adolescente para se sensibilizar pela geração mostrada na série, basta ser gente e ter sentimentos, basta ter se sentido sozinho ou mal interpretado e compreendido uma vez na vida para saber que machuca e que alguém que passe por isso muita vezes ou por tempo demais sem ajuda pode se perder para sempre. O que não podemos deixar acontecer, conosco, com quem está a nossa volta ou sequer conhecemos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cada 40 segundos, uma pessoa tira a própria vida no mundo.

13 Reason Why não é apenas para entreter, ela se propõe a passar uma mensagem bem clara e consegue. Então assista, absorva, reflita e passe para a frente. Preste mais atenção as pessoas que estão do seu lado, que sofrem caladas, que não conseguem pedir ajuda. Às vezes uma conversa, um abraço, simplesmente se importar e ficar ao seu lado pode fazer toda a diferença. Por todas as Hannahs que estão por ai.

Não seja um porquê!

 

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