Assisti a premiere da 11ª temporada de Arquivo X, uma das minhas séries preferidas, que ajudou a criar meu caráter de seriadora, uma das primeiras, se não a primeira série que ganhou todo o meu investimento emocional. E o que vi me deixou tão irritada e magoada que precisei vir falar sobre. Então vamos lá.

Aviso de que este post terá spoilers do episódio 11×01. Não continue se não tiver assistido!

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Um dos grandes mistérios deixados para essa, que ao que tudo indica ultima temporada da série foi a localização de William, filho de Scully e Mulder. E a premiere parecia dedicada a explorar a ligação da agente Scully com o filho, um grande alivio para mim, que achei e temi que fossem enrolar até o ultimo episódio para chegar a esse ponto. Só que ao final do episódio me arrependi amargamente de ter desejado saber mais sobre William.

Em uma reviravolta muito mal pensada e triste foi revelado que William não é filho de Mulder, como sempre ficou subentendido, mas sim do grande vilão da série, o Canceroso e pai de Mulder. Ai você pode pensar CARALEO, por que fizeram isso com o meu casal?Passei mais de QUINZE anos crendo que William era fruto do amor entre Scully e Mulder, era lindo! E agora ele é não filho, mas meio irmão do Mulder? Pra que isso?

Eu também pensei, não se sinta culpado, mas só depois de registrar na minha mente de que William, o bebê milagroso(Scully era estéril até engravidar), tão esperado e amado não foi fruto do amor dos pais, mas de um estupro. Meu estomago revirou algumas vezes enquanto o Canceroso contava a Skinner que 17 anos atrás ele havia deliberadamente levado Scully para uma viagem, drogado e engravidado ela usando ciência alienígena, sem se aprofundar no método deixando nossa cabeça imaginando as cenas mais nojentas. Seu intuito era criar o primeiro super-humano e ele escolheu Scully e sem seu consentimento a engravidou. Vemos cenas do episódio “En Ami” enquanto ele explica tudo, com Scully inconsciente no carro dele e depois acordando em uma cama desconhecida, com outras roupas e com um Canceroso sorridente e triunfante por ter conseguido subjugá-la e feito com o seu corpo o queria. A definição de estupro!

E o mais chocante depois dessa decisão criativa estupida e errada foi a resposta do criador da série, Chris Carter, negando o comportamento do Canceroso como uma violação ao corpo de uma mulher em uma entrevista a EW.

“Canceroso é o pai figurativo de William, se não for seu pai biológico. Ele não estuprou Scully, ele a impregnou com ciência“.

Essa fala responde uma pergunta e e deixa outra coisa muito clara para mim. Sim, Chris Carter sabe o significado de estupro, o que me perguntei após ler a declaração. E não só sabe como tem total noção de que o publico entenderia a cena e o  acontecimento desse jeito, tanto que ele foi rápido em defender a ação do personagem antes mesmo do episódio ir ao ar. Ele sabia o que estava fazendo e sabia que os fãs reagiriam.

E é claro que a reação dos fãs foi a de revolta. Em tempos como os de hoje, em que abuso contra mulher, tanto dentro quanto fora das telas é assunto, motivo de discussões, reflexões e mudanças, a decisão de pegar a sua personagem principal, um ícone feminino e colocá-la nessa posição a fim de chocar o publico e mover a história é um insulto, é inaceitável e desrespeitoso, não só com a personagem, quanto com os fãs que acompanham a série há mais de vinte anos. É reafirmar um comportamento misógino que não se corrigiu com o passar dos anos. É bater na tecla de que o corpo feminino, representado por Scully não lhe pertence e é ferramenta narrativa.

Por que sim, ou não, não foi a primeira vez que Chis Carter usou o corpo de Scully para mudar o rumo de Arquivo X. Na segunda temporada a atriz Gillian Anderson, que foi escalada para ganhar metade do salário de  David Duchovny engravidou e precisou se ausentar por algum tempo das gravações. Isso deu a ideia a Chris Carter de criar o plot da abdução de Scully para experimentos,primeira violação, quando todos os seus óvulos foram roubados dela, lhe roubando a chance de engravidar, segunda violação. Temporadas depois ela tentou por meio de fertilização engravidar e pedindo a Mulder para ser doador falhou.

Então milagrosamente ela engravidou ao final da sétima temporada e entre tanto sofrimentos, idas e vindas e separações entre ela e Mulder um filho de uma relação consensual era um dos únicos pontos de alivio que o fãs de Arquivo X tinham. Afinal os personagens lutavam contra algo maior que eles próprios e sacrificaram muito, incluindo uma vida ao lado de William, então um filho fazia meio que tudo valer a pena. Mas Chris Carter decidiu tirar isso não só da gente, quanto da personagem. Um filho que era o seu milagre, o único que ela poderá ter e que pensava ter sido o resultado de uma relação com o homem que ama na verdade é resultado de um abuso sofrido pelo vilão da sua vida. Terceira e pior das violações, por que foi causada não só por um homem asqueroso como o Canceroso como também pelo criador da série.

Está tudo tão errado nessa decisão que não sei por onde começar. Chris Carter pode até ter dito a verdade quando falou que esse twist já era sua intenção desde 1999, quando a cena de  “En Ami” foi ao ar, mas não repensar, não enxergar nele algo incorrigível, que não traria nada de bom a história e aos fãs é surpreendente, mesmo para alguém do seu perfil, que carrega um tanto de descaso com as personagens femininas e suas interpretes. Não consigo não achar que não foi de propósito, tanto em 1999 quanto agora em 2018 dar esse golpe na principal representante da sua série.

Algo que nunca foi sua intenção. Mulder era o protagonista, Scully sua coadjuvante, seu contra-ponto, David Duchovny seu astro em ascensão e Gillian Anderson a atriz desconhecida. Mas foi Scully quem caiu nas graças do publico, foi Gillian Anderson quem virou estrela fora da série e quem ficou quando Duchovny saiu, acabando com a consistência da mitologia de Arquivo X. Não nos esqueçamos de que mesmo assim foi oferecido a Gillian Anderson metade do salário de David Duchovny para voltar para a 10ª temporada em 2016. É como se o sucesso de Scully/Anderson e o que elas representam não estivesse nos planos de Carter e ele precisasse manchar a imagem da personagem de alguma forma, ou pequenas formas ao longo dos anos.

E eu sei que muitos vão acompanhar o pensamento do criador e dizer que Scully não foi estuprada, que o maior drama aqui é tirar a paternidade de Mulder, mas estão todos errados, cada um num grau. Nenhuma dor é maior para uma mulher do que a de um estupro, nada é mais degradante para uma mulher do que ter seu corpo usado. Se você acha que não foi estupro precisa rever seus pensamentos e definições. Por motivos científicos ou não foi um estupro. E se você acha que Mulder assumir o filho de outro o pior aqui, precisa voltar duas casas no tabuleiro da vida.

Como fã de Arquivo X desde que a série estreou nos anos 90, como fã de Scully, da força que Gillian Anderson colocou na personagem e principalmente como mulher não posso não me indignar com o que vi, com mais essa representação violenta do que é ser mulher, de ter o corpo visto como objeto, instrumento, motivação. Arquivo X não foi a primeira série a fazer isso e com certeza não será a ultima, mas essa constatação não tira a tristeza e fúria que ficou comigo e com muita gente depois de assistir a algo que esperei tanto. Antes tivessem deixado a série lá atrás, vivendo apenas no coração e na memória dos fãs. Por que se na década de 90 não houvesse esclarecimento suficiente do publico para enxergar o que estava errado, hoje esse tipo de artifício é não só facilmente detectado quanto desnecessário e rejeitado.

Me lembrei é claro do “teste Bechdel”, criado pela autora Jada Yuan para saber se cenas de estupro são realmente importantes.

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima? Não, Scully sequer sabe do que lhe aconteceu. A revelação é pra explicar atitudes do Canceroso e é ele quem está fazendo a revelação.
  2. A cena de estupro possui o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa? Não, o estupro é pra mover a história.
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?Não. Como disse ela não sabe do estupro. E se souber não haverá desenvolvimento, pois se a série continuar, Scully não continuará nela.

Que vergonha Chris Carter! Não adianta trazer roteiristas mulheres e diretoras(duas, entre 207 diretores) para a sua provável ultima temporada, se no centro de tudo, no esqueleto da série a misoginia continua impregnada. Não me surpreende nem um pouco Gillian Anderson ter deixado bem claro que não volta mais para Arquivo X. Depois do que aprendi com One Tree Hill e com o que vejo repetidamente acontecendo aqui, só posso dizer uma coisa. Tá certíssima!

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