Será difícil conter a emoções para falar de um dos melhores episódios da temporada de Grey’s Anatomy“Personal Jesus” que na minha opinião se apresentou com uma grata surpresa, daquelas que dão um nó na garganta, mas ao mesmo tempo te enche de reflexões.

Eu sou um pouco suspeita, é verdade, pois finalmente apareceu um episódio focado na minha personagem favorita. (Eu amo todos os personagens de Grey’s Anatomy, mas tem aqueles que a gente se identifica mais, no caso todos os meus outros favoritos já saíram da série: Addison, George e Callie). Digamos que a April Kepner faz meus olhinhos brilharem.

Eu não sou a única! O episódio teve uma repercussão interessante não só por focar em uma personagem que há muito tempo estava “apagada”, mas por tratar de temas tão profundos que mexem com as ideologias humanas. A fé de April Kepner abordada neste episódio não foi apenas sobre um debate moral; ou sobre acreditar ou desistir de Deus, foi muito mais profundo, ainda mais por se tratar de uma fé cristã e protestante, atingiu diversas pessoas que assistem ao show.

Sarah Drew, intérprete de April, trouxe uma proximidade que poucas vezes eu vi algum ator/atriz interpretar um personagem evangélico, e parte disso porque a própria Sarah se identifica e compreende a fé de April, neste sentido podemos dizer a atuação da Sarah como uma evangélica nunca foi como uma caricatura, mas sempre muito real e acessível a uma cultura tão próxima a nossa. Convenhamos, é muito difícil escrever e atuar em um viés religioso sem parecer estereotipado (basta lembrarmos de Caminho das Índias e O Clone), embora autores e atores tenham as melhores intenções, é muito difícil transmitir uma realidade religiosa que engloba cultura, dogmas, modo operante e toda uma realidade social da qual muitas vezes a gente não tem noção do que seja. A cultura evangélica não é muito distante, mas ainda assim, por diversas razões é muito estereotipada e difundida deste modo.

O início do episódio traz a narração da história bíblica encontrada no livro de Jó, e própria April reflete através dessa ilustração o debate da fé x sofrimento, o que viria neste dia por em cheque pela primeira vez a sua fé, abalando suas estruturas dogmáticas por causa de acontecimentos terríveis e das injustiças que ocorrem no mundo. Todo mundo entende disso! Quem nunca questionou a existência de Deus ao ver as atrocidades que acontecem perante os próprios olhos?

Sabe aquele ex noivo da April? Aquele que ela abandonou no altar? Apareceu no hospital com a esposa em trabalho de parto. O ex noivo ainda estava magoado, mesmo tendo seguido em frente, quem não se sentiria humilhado? Ainda neste tema religioso April, Richard e Carina tiveram que lidar com um garoto cristão que cortou a própria mão por se masturbar, enquanto isso tentavam mostrar a ele o lado científico do corpo humano e sua funcionalidade, inclusive para seu próprio prazer. O garoto surtou fazendo diversas perguntas para April que foram um gatilho de inconformidade para com tudo que estava acontecendo.

Essa inconformidade gerou aparentemente um comportamento de rebeldia em April, ao final do episódio mostra que ela se relacionou e teve sexo com um completo estranho que ela encontrou no bar. April nunca tinha feito isso, minto ela tinha um voto de castidade, mas quando quebrou esse voto dormindo com Jackson a fé dela estava intacta, quer dizer, naquele contexto ela estava arrependida de seu “erro”. Desta vez foi diferente, ela fez o que queria porque estava decepcionada e cansada de seguir princípios que não a estavam poupando de sofrimento nenhum.

O episódio mostrou a complexidade que é para cristãos e não cristãos se entenderem dentro de sua própria religiosidade. Houve um certo burburinho entre alguns cristãos (somente alguns cristãos, que fique claro) que o episódio foi uma espécie de “mal exemplo” para cristãos. Particularmente, endosso aqui a opinião de diversos cristãos que entenderam o enredo como um fato da vida, isso é, a humanidade é para todos nós, as dúvidas, as angustias, os sofrimentos, os erros. Obviamente, a gente torce aqui para que April se reencontre com sua fé, positividade e esperança. <3

O racismo mais uma vez vem à tona como temática em Grey’s com o caso dos policiais que atiraram em um adolescente negro que estava sem a chave de casa, e estava tentando arrombar sua própria casa. O relato é chocante, os policiais estavam cumprindo o protocolo, e simplesmente não conseguiram ou não quiseram enxergar o quão racistas foram/são por atirarem em uma criança que por ser negra está fadada a sofrer quase um extermínio.

A situação desse garoto abalou nossa rainha Bailey e Warren que chamaram o filho deles para conversar sobre a ação policial sobre jovens negros. Se você ainda não tiver chorado, provavelmente o choro vem nesta cena que fica explicita a injustiça que o racismo trás, uma injustiça que amadurece crianças para uma realidade que ela não deveria viver.

 Paul ex marido de Jo, na verdade, foi atropelado por um motorista bêbado que fugiu (ainda bem que não foi ninguém que a gente ama que cometeu esse crime hahaha). Em decorrência disso a situação dele piorou clinicamente, e acabou sofrendo morte cerebral. Jo como atual esposa foi a responsável pela decisão de doar seus órgãos. Em resumo, eu achei uma saída fácil, assim como a noiva de Jenny, vivida pela linda atriz Bethany Joy Lenz disse, eu também concordo, queria arrastá-lo aos tribunais e depois vê-lo apodrecer na cadeia.

 Jenny ainda teve um momento de epifania muito bonito, ela percebeu e confessou a Jo como ela entrou e permaneceu em um relacionamento abusivo, mesmo ela sendo uma mulher instruída, independente e feminista. Em uma cena tocante, ela relata como Paul realizava o processo de abuso fazendo-a acreditar que era culpada e errada inclusive nas agressões. Quando ela se percebe e emerge desse contexto para sua libertação e enfrenta Paul, ela fecha seu ciclo. Pessoalmente, eu ainda acredito que foi muito rápido, mas é que teve para hoje.

Apesar de toda a crise humanitária presente no episódio, teve um momento fluff protagonizado por Maggie, quando ela leva algumas crianças para fazerem uma experiência científica. As crianças ficaram maravilhadas com a “fumaça” saindo da experiência que ela estava proporcionando. Essa cena me fez pensar muito, ironicamente neste episódio a Ciência apareceu como uma magia doce, leve e feliz; enquanto a Religião apareceu de forma pesada e cheia de expectativas.

No fim das contas o que realmente sabemos é que estamos vivos, seja escrevendo textos, fazendo experiências científicas, vivenciando o sexo, indo à igreja. Independente nos nossos princípios e mesmo com todo o sofrimento do mundo, nós somos a humanidade e precisamos encontrar formas de viver bem e ajudar aos outros porque sendo criaturas do mesmo Deus ou do mesmo Universo, estamos aqui partilhando este mesmo lugar.

Essa review foi muito autoajuda. Eu disse que a emoção do episódio iria me atrapalhar. Semana que vem a gente volta com programação normal.

 

 

 

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