Á ultima edição do Emmy, que foi ao ar no ultimo domingo pode não ter sido uma dos mais assistidos, mas foi com certeza uma edição para entrar para a história da premiação mais importante da TV americana.  Isso por que pela primeira vez as mulheres estiveram no centro da noite, protagonizando as principais categorias e mais vencendo.

Indo contra a ideia que perpetua o mercado da TV e cinema de que produções lideradas por mulheres não tem o mesmo alcance, apelo e audiência de produções lideradas por homens, vimos séries dos mais diversos estilos sendo reconhecidas com indicações e vencendo, tanto na frente das câmeras quanto atrás delas.

Só não se deixe enganar, a indústria da TV não anda tão evoluída assim dando o espaço que as mulheres merecem. A cada ano cresce o numero de produções criadas por atrizes e produtoras que não encontrando seu lugar o criam. Você com certeza já assistiu uma série em que a protagonista é interpretada pela criadora, diretora e escritora da série e não sabe. Série como Insecure, Better Things e uma das grandes vencedoras do Emmy deste ano, Big Little Lies.

Mas fato é que as mulheres estão quebrando as regras, a normalidade errada e finalmente sendo reconhecidas por isso. Então separamos aqui alguns momentos do Emmy que exemplificam o atual momento da luta das mulheres por chances de contar histórias.

 

 

Lena Waithe que levou o Emmy de melhor roteiro em série de comédia ao lado de Aziz Ansari por Master of None foi a primeira mulher negra a ganhar um prêmio como roteirista na história do Emmy e durante seu discurso fez questão de falar sobre a importância da diversidade na TV: “As coisas que nos fazem diferentes. Essas coisas são nossos superpoderes”. Seu discurso também foi voltado a comunidade LGBT, que a atriz e roteirista representa de cara limpa e muito amor no peito. “Eu vejo vocês… Todos os dias, quando vocês saem pela porta, colocam suas capas imaginárias e vão conquistar o mundo. Porque o mundo não seria tão bonito se não estivéssemos nele.”

 

 

San Junipero que foi um dos episódios mais amados de 2016 e mostra a história de amor de duas mulheres, uma branca e uma negra recebeu não só um, mas dois Emmys no domingo, o de melhor roteiro em minissérie e de melhor telefilme. Antes disso a popularidade que a história de um único episódio alcançou já havia feito os produtores de Black Mirror pensar em dar uma continuidade a ela, agora que ela foi reconhecidamente premiada deve ser só uma questão de tempo.

 

 

Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton subiram ao palco para apresentar uma categoria trinta e sete anos depois de estrelarem juntas  o filme Como Eliminar Seu Chefe e fizeram questão de criaram um paralelo entre suas personagens no filme que se juntaram contra um chefe machista e a atual situação americana, que é comandada por um chefe de estado abertamente machista e preconceituoso, “Em 1980, nós nos recusávamos a ser controladas por um homem sexista, egoísta, mentiroso e hipócrita”, disse Jane Fonda. “E em 2017, nós continuamos a nos recusar a ser controladas por um homem sexista, egoísta, mentiroso e hipócrita”.

 

 

Julia Louis-Dreyfus é uma atriz consagrada na comédia, desde os tempos de Seinfiel e conseguiu em um tempo de turbulência politica americana vencer seis anos seguidos o prêmio de melhor atriz em série de comédia com a mesma personagem, que não só é a protagonista de Veep, mas a presidente dos Estados Unidos. Ela se transformou em um símbolo do panorama atual e vem sendo premiada há anos por isso, inclusive batendo o recorde do Emmy como primeira atriz a vencer seis vezes pela mesma personagem.

 

 

Reese Witherspoon estava se consagrando no cinema como atriz de comédias românticas quando cansada da qualidade de papeis que lhe eram oferecidos resolveu criar sua própria produtora, a Pacific Standard. Assim ela pode contar suas próprias histórias, interpretar as personagens que quisesse e fez o que nunca haviam feito por ela, deu essa oportunidade a outras mulheres. Assim vieram projetos dos mais variados temas e o seu primeiro para a TV, que a HBO logo abraçou. Big Little Lies, a adaptação do livro do mesmo nome que conta a história de cinco mulheres e do mundo ao seu redor através dos seus pontos de vista ganhou o prêmio de melhor minissérie de 2017. Durante o discurso de aceitação do premio ela falou sobre a importância de colocar mulheres em lugares de destaque. “Tragam mulheres para o centro de suas próprias histórias e façam delas as heroínas de suas próprias histórias”

O padrão HBO colocado à disposição de produtoras e atrizes talentosas garantiu a minissérie indicações e os principais prêmios nas categorias de minissérie. Reese concorreu a melhor atriz, mas concorreu ao lado de sua colega de produção e atuação Nicole Kidman, que ficou com um papel tão bom quanto o dela, mas com uma carga dramática maior, o que deu a chance de Nicole Kidman brilhar e levar o Emmy para casa.  Em seu discurso ela aproveitou para lembrar a situação de abuso que sua personagem vive e da importância de contar essa história. O que só acontece na maioria das vezes quando o projeto vem das mãos de mulheres.  Laura Dern também foi premiada por sua personagem em Big Little Lies na categoria de melhor atriz coadjuvante e concorreu ao lado de Shailene Woodley.  Fato é que uma minissérie criada, produzida, estrelada e protagonizada por mulheres conseguiu chegar onde qualquer boa série chega, que é diante de uma estatueta, ou, no caso, de várias.

 

 

A série mais importante do ano não foi a dos dragões, não este ano, não quando a história criada por Margareth Atwood ganhou as telas através do Hulu. The Handmaid’s Tale estreou discretamente, sem fazer alarde, mas já na semana de lançamento criou um grande estardalhaço nos consumidores de séries. Um universo diatópico onde mulheres perdem todos os seus direitos e são transformadas em propriedade do governo ganhou atenção geral, deixando os que assistiram impactados e os que ainda não haviam assistido curiosos.

A força da história de June, ou, Offred aliada à qualidade técnica fez de The Handmaid’s Tale a série mais bonita e querida do publico e crítica em 2017. O tamanho da história contada fez da série, diferente de Big Little Lies, a série dada como certa nas premiações do ano e favorita em todas elas.  O que acabou se confirmando quando a série saiu vitoriosa de todas as categorias em que concorreu.

Reed Morano venceu na categoria de melhor direção em série dramática e foi a primeira mulher a vencer na categoria nos últimos vinte e dois anos do Emmy. Morano dirigiu o primeiro episódio de The Handmaid’s Tale e deu a força e sensibilidade que a história pedia, estabelecendo o estilo visual que foi levado para o restante da temporada de colocar a protagonista e seus sentimentos em primeiro plano, em takes fechados, valorizando Elisabeth Moss e seu talento em todas as cenas. E você pode achar que não é importante, mas premiar uma diretora é tão importante quanto premiar uma atriz, mulheres precisam de todo e qualquer incentivo para contar histórias, seja na frente das câmeras ou atrás delas.

 

 

Ann Dowd que surpreendeu levando o prêmio de melhor atriz coadjuvante em série dramática atua há décadas e nunca teve nenhum papel de destaque e conseguiu seu primeiro Emmy com The Handmaid’s Tale. Alexis Bledel que sempre foi uma atriz conhecida por Gilmore Girls só conseguiu aplausos por sua atuação e consequentemente um prêmio na série. E Elisabeth Moss, que há anos vinha chamando atenção por sua atuação conseguiu com sua personagem em The Handmaid’s Tale arrebatar corações, tanto que ela foi à aposta geral de qualquer pessoa que tenha assistido a série. Ela fez de Offred/June a melhor personagem do ano e sua atuação foi merecidamente premiada com o Emmy de melhor atriz em série dramática. Durante seu discurso ela se dirigiu a mãe e se lembrou de um dos seus ensinamentos, de que ela podia ser uma mulher gentil e fodasticamente badass. Durante a coletiva pós premiação ela lembrou que o numero de mulheres na frente das câmeras e atrás ainda é imensamente baixo se comparado ao masculino.

Então a conclusão é: Ainda estamos anos luz do ideal, esse post é uma constatação, mulheres precisando colocar a mão na massa e criar suas produções para conseguir bons papeis, boas histórias, escrever ou dirigir é outra, o numero mais baixo ainda de mulheres negras outra constatação que não podemos deixar passar. Porem estamos com certeza melhores do que ano passado e no ano anterior. Essas pioneiras estão abrindo portas e pavimentando o caminho para as mulheres do futuro passar.

 

 

 

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