Dramas sobre serial killers não são novidade na televisão. Entre MilleniumCriminal Minds, LutherDexter, Bates Motel e The Fall o melhor de todos os casos recentemente e talvez o melhor de todos os tempos em minha opinião: Hannibal, a obra–prima de Bryan Fuller. Mindhunter, a nova série da Netflix, encontra um jeito próprio e um caminho diferente para usar todos esses clichês que já foram utilizados, mostrando como eles foram criados em primeiro lugar.

Baseado no livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit escrito por John E. Douglas e Mark Olshaker, a série começa no final da década dos anos 70, relatando os agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) interrogando serial killers com a ajuda da acadêmica Dra. Wendy Carr (a ótima Anna Torv, que tem muita experiência com o FBI desde Fringe) para resolver vários casos de homicídio na primeira experiência do FBI em analisar a psicologia dos serial killers e praticamente oficializar esse termo e os métodos de investigação e origens dos criminosos.

O dramaturgo e roteirista britânico Joe Penhall adapta o livro de John E. Douglas, uma lenda do FBI que ajudou a inventar a visão moderna da criação de um perfil criminal. Holden e Bill são versões fictícias de Douglas e do parceiro dele na época Robert Ressler, isso faz com que Joe Penhall tenha uma licença poética e liberdade para mostrar como esse trabalho pode afetar a vida pessoal desses dois homens e enriquecer eles com os seus próprios toques, embora a maioria dos criminosos e casos que eles investigam sejam infelizmente assustadoramente reais.

A parceria entre os dois resulta em um tipo de dupla típica de várias séries e que sempre funciona muito bem, algo na linha Arquivo X e a primeira temporada de True Detective. Holden é um forte entusiasta do método de se aplicar uma analise psicológica no trabalho de investigação criminal. Enquanto Bill é o típico policial veterano sábio e cínico que já está cansado e de saco cheio, ele sabe que tem algo de certo na visão de Holden, mas é cético no quanto o seu parceiro mais jovem está espelhado nos seus casos. Os dois então viajam pelo pais investigando “assassinos sequencias” (o termo serial killers ou assassinos em serie ainda não era usado) fazendo perguntas como o que levou eles á matar e são colocados para debaixo do tapete pelos seus chefes que acham o trabalho deles depravado, estranho, inapropriado e indigno para o FBI. Com o tempo, a Dra. Wendy Carr se junta á eles formando um trio que tenta se ajudar mutualmente enquanto ela tenta fazer que Holden e Bill voltem á rotina de investigar um caso por dia para aperfeiçoar esse tipo de nova ciência.

O produtor executivo e diretor de quatro episódios da série David Fincher é um dos cineastas mais respeitados e interessantes da atualidade e em atividade. Ele esteve envolvido com televisão nos últimos anos e foi um dos responsáveis pelo primeiro grande sucesso da Netflix, House of Cards. Infelizmente ele não conseguiu emplacar alguns projetos na HBO como uma adaptação da série britânica Utopia, toda dirigida por ele roteirizada pela escritora Gillian Flynn (de Garota Exemplar). Mas ele voltou para a Netflix com essa série, que eu diria é uma mistura do espetacular Zodíaco (o melhor filme de Fincher em minha opinião e uma obra–prima) com a primeira temporada da já citada True Detectivem em uma espécie de Mad Men para caçadores de serial killers. O foco da série não são as investigações de Holden e Bill, que pouco aparecem ou tem algum destaque, o foco dela é em tentar entender as atrocidades que já foram cometidas por homens perturbados como Ed Kemper (Cameron Britton, em uma atuação fantástica, que tem a façanha de usar o seu tamanho gigante para assustar e acalmar os policiais em questão de segundos, conseguindo ser ao mesmo tempo uma figura extremamente assustadora e afável pela sua educação), um homem que abusava dos cadáveres decapitados das suas vitimas.

Depois de um primeiro episódio interessante, porém muito arrastado, que se foca em apresentar Holden e o seu relacionamento com a sua namorada Debbie (Hannah Gross), Mindhunter finalmente se encontra de forma rápida ao apresentar Ed Kemper e se focar nas suas longas e inquietantes conversas entre o monstruoso em todos os sentidos, Kemper e Holden tem diálogos que fogem da glamorização e por outro lado não fogem do explicito ao falar sobre quem Kemper é e o que ele fez. Essa relação e todas as outras relações que virão com os assassinos que virão despertam uma série de coisas em Holden e Bill. Enquanto Holden desperta a ira de muitos outros policias por parecer ter empatia demais por esses assassinos, Bill é capaz de fingir simpatia por eles, algo que ele nunca seria capaz de sentir. Temas como religiosidade e a percepção da psicopatia são temas de episódios posteriores e só servem pra enriquecer a história colocando mais luzes (ou nesse caso a palavra escuridão se aplica melhor) na vida desses homens.

A abordagem de Joe Penhall, David Fincher e os outros roteiristas e escritores para a série é seca, pesada, lenta e sem frescuras. Uma das coisas mais legais é acompanhar um mundo onde todas essas ideias sobre serial killers que nós já  conhecemos eram novas e muito mais assustadoras pela falta de conhecimento prévio, mostrar a invenção de um procedimento e de um processo criminal é o principal plot da série. Esteticamente a série deixa claro o quanto o trabalho desses homens é triste, cansativo e melancólico tanto por envolver uma série de vitimas quanto por envolver uma série de predadores. A vida de todos é tocada por uma nuvem negra e a série é muito sabia na hora de traduzir isso. Os diálogos inteligentes e sofisticados da série servem para retratar esse mundo envolto de tragédias, sempre com boas sacadas, inclusive ao fugir do obvio em sua trilha sonora inclusive.

As tramas paralelas sobre as vidas pessoais dos personagens: o complicado caso de Holden e Debbie, o filho com necessidades especiais de Bill que pode esconder um lado mais negro e a carreira de Wendy sendo colocada em risco ao se envolver com esse projeto não são o chamariz da série de forma alguma, mas ajudam muito á criar o perfil dos personagens. Os três personagens são brilhantemente interpretados por Anna Torv que insere muita profundidade de forma sutil na sua introspectiva Wendy, Holt McCallany é genuinamente humano no personagem mais sério e centrado da série em papel que pode ser considerado o mais difícil dos três porque nas mãos erradas seria bem ingrato e, especialmente, por Jonathan Groff, que está ótimo.

A figura real do personagem de Jonathan serviu de base para vários outros investigadores da ficção, como por exemplo o Jack Crawford das várias e várias adaptações de Hannibal. Jonathan porém realiza um trabalho próprio com esse jovem inicialmente ingênuo, idealista e muito inseguro que logo se torna alguém muito nervoso ao confrontar o mundo real, é notável a maneira que ele lida com uma mistura de medo e animação ao se dar conta com o quanto ele se sente confortável em conversas com assassinos como o já citado Ed Kemper ou o tão insano quanto Richard Speck (Jackie Erdie), o que acaba fazendo com que ele confronte a sua própria sanidade e as suas “convicções” no final da temporada o que afeta o seu bem estar.

Durante toda a temporada somos apresentados a pequenos “teasers” de Dennis Rader (Sonny Valicenti), o assassino BTK, que deverá ser uma das tramas da próxima temporada. Eu admito que eu achei esses “teasers” dentro da série um pouco distrativos, mas fora isso e outros pequenos problemas como o primeiro episódio arrastado, Mindhunter consegue fazer uma primeira temporada fascinante e surpreendentemente única. Midhunter prova que não importa o quanto um tema já seja batido, você explorar ele de uma forma diferente e interessante.

NOTA: 9

 

 

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