Que abraço! Que delicia de temporada Pamela Adlon e Louis C.K nos deram nesta fall season.

Não que seja uma novidade, mas aposto que muita gente vai assistir Better Things e vai estranhar a escolha de narrativa, até mesmo desgostar do tipo de protagonista mostrada na comédia estreante do canal FX. Mas pelo menos para mim é nestes dois pontos que estão à graça da série.

Se você espera um plot com desenvolvimento básico de começo meio e fim, uma protagonista feminina fuderosa no estilo Annalise Keating, Jessica Jones ou Claire Underwood vai com certeza se decepcionar, ou, se surpreender positivamente como eu me surpreendi. Sam, a personagem criada, escrita, dirigida e interpretada por Pamela Adlon é uma mulher como eu, você, suas amigas… Uma mulher comum vivendo uma vida comum cheia de altos e baixos e é ai que está sua força.

Sam é uma atriz de quarenta anos que nunca ficou famosa, que vive de audição em audição e vive na categoria do meio, a dos atores que você já viu em algum lugar, mas não lembra onde nem o nome. Ela luta para se firmar no mercado que está mudando e exigindo mais e mais, principalmente de mulheres e pagar as contas. Glamour passa longe e Sam está mais para engolidora de sapos do que para estrela do cinema. Além disso, ela cria sozinha três filhas que estão na pré e na adolescência e tenta ter uma vida social minimamente ativa.

Pamela Adlon quis mostrar em Better Things mulheres reais e histórias reais que ela inclusive dedica as suas filhas ao final do décimo episódio e você se pega assistindo pequenos contos, situações de Sam quanto mulher, mãe, filha, amiga e profissional. Não existem questões morais a serem resolvidas, apenas vividas por uma mulher que se desdobra entre um trabalho instável, três meninas e uma mãe que nem sempre ela gosta… Sim, como trocentas mulheres que você conhece.

Better Things

Max, Frankie e Duke

Uma filha em conflito de gênero, outra com o coração quebrado pela primeira vez, ou questionando a vida adulta enquanto a terceira tenta encontrar sentido em uma religião.  Tudo isso entre abraços triplos, gritos, correria, um incentivo e muitas brigas. As pequenas alegrias e pequenos dramas e conflitos na vida dessas quatro mulheres vêm aos poucos e é impossível não se pegar dizendo em alguns momentos, ou pelo menos uma vez por episódio “sim, é realmente assim”.

A imperfeição de Sam como mulher, mãe e filha é o coração de Better Things, talvez o plot principal que pode fazer falta a muita gente. Ela acerta e erra na mesma medida, uma relação está diretamente ligada à outra e ao final de cada episódio você quer dar um abraço apertado naquela mãe e dizer que queria ser Duke, Max ou Frankie, ou um conselho dizendo para ela se dar uma chance como mulher e se colocar em primeiro lugar, mas quer puxar sua orelha por não ter paciência com a mãe.  Você é Sam, conhece uma Sam ou quer ser uma Sam.

E a feminilidade exala em Better Things, de todos os tipos, formas e características.  A vida de Sam é regrada apenas por mulheres, de várias gerações e personalidades, mas todas com os dois pés no chão. Pamela Adlon coloca em cena alguns dilemas que muitos simpatizarão, mas só mulheres entenderão, realmente entenderão. O ultimo e frenético episódio da temporada “Only Woman Bleed” é um desses que tem o publico feminino como alvo. Algumas situações são a reinterpretação de momentos que você já viveu com uma amiga e que basta um levantar de sobrancelha pra vocês saberem do que estão falando.

E é claro que mostrando um universo feminino no seu intimo Better Things passa algumas mensagens de empoderamento, mesmo que não admita. Seja com o casamento merda da melhor amiga de Sam, com o ex de Sam que é inexistente na vida das filhas, mas que não ganha nem um segundo a mais de pensamento por que não merece, a batalha de Sam em um mercado de trabalho que vai sempre preferir algum mais jovem, ou,  com a vida sexual de uma mulher de quarenta anos no mundo moderno e conectado. Sam é a mulher atual lutando com às regras da mulher antiga que está educando e preparando a próxima geração, mas de forma real.

cv4ayj8wyaazi2mMulheres, mulheres e mulheres. Tirando algumas participações masculinas como a de Lenny Kravitz em um episódio, alguns amigos aqui, um colega de trabalho ali, Better Things é focada e dominada por personagens femininas. E não me entenda mal, ou entenda a série a mal, os homens não são o inimigo aqui, eles só não são necessários na vida dessas mulheres. Elas e suas trajetórias se bastam e por mais que eu tenha dito no começo que a série não se prende a narração convencional, ao final da temporada você pode dar um passo atrás, ver a temporada como um todo e enxergar uma linha bem clara entre a largada e a chegada, a evolução individual de cada uma delas, mesmo que tenha sido apenas para conhece-las, entende-las, posiciona-las no tabuleiro e se encontrar nessa família que as vezes parece uma bagunça sem fim e rasa, mas que é muito mais complexa do que você imaginou.

Sutileza talvez seja o adjetivo mais justo para Better Things. A sutileza nos diálogos, sutileza nas situações, sutileza no cômico e nos dramas. Sutileza em abordar temas tão fortes como racismo e identidade de gênero. Com certeza a sutileza na atuação poderosa de Pamela Adlon. Em alguns momentos a série parece não querer se comprometer com nenhuma bandeira, com nenhuma causa, afinal é de uma comédia que estamos falando, mas no final ela abraça todas dando de ombrinho e falando “tamo junto”.

A segunda temporada está garantidíssima e alguns assuntos com certeza ficaram para ser explorados nela. Como a vida amorosa de Sam que sempre ficou espremida entre a correria do trabalho e as filhas. A relação problemática com a mãe, que foi pincelada durante a temporada, mas um pouco mais aprofundada na season finale. E também como Sam ajudará Frankie a lidar com sua possível transição ou simples descoberta de gênero. São muitas possibilidades para a próxima temporada, muitos contos( sim eu  vejo os episódios de Better Things como pequenos contos com os mesmos personagens) que Pamela pode adaptar da sua vida ou criar.

E só posso dizer para que vocês deem uma chance a essa série tão sincera e inspiradora. Tenho para mim que veremos muitas protagonistas como Sam surgindo por ai, por que todos nós gostamos de uma heroína e elas podem sim se parecer com a gente em vez de com alguém que queremos ser, só para variar um pouco.

Assistam!!

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