MasterchefBR é um dos meus programas preferidos. Realitys não são meu forte, mas o culinário realmente me pegou. assisto desde a primeira edição, episódio após episódio e quando anunciaram a edição de profissionais fiquei empolgada com a possibilidade de uma nova dinâmica, com a novidade de ver participantes mais experientes e com mentalidade um pouco mais madura para aquele ambiente competitivo.

A minha expectativa era de que a competição fosse levada a outro nível, mas não imaginei que em vez de subir fosse descer e que o tom seria esse, o do machismo. Desde o primeiro episódio a maioria dos homens da edição se mostraram territoriais (mesmo em um ambiente novo), condescendentes, paternalistas e desdenhosos com as mulheres. O que me fez ir gostando cada vez menos do programa, semana após semana, terça após terça.

Ivo e João foram os primeiros a se destacar do rebanho e mostrar seus modos ou a falta deles. João mexeu com Paola e logo ganhou a antipatia do publico, o que acabou mascarando a atitude abominável de Ivo com Izadora, que em um momento de dificuldade foi tratada de forma autoritária e desprezível pelo colega. Muitos forcaram no confronto de João e Paola, mas eu me lembro perfeitamente do modo como João se recusou a receber ordens da única chef mulher dos três que usam e abusam das ordens e como Ivo passou por cima da colega como um caminhão carregado de ódio.

Pricylla foi a terceira participante a virar alvo da dupla. Em um prova em grupo onde os três formavam uma equipe João e Ivo trocavam ideias e quando Pricylla fez força para contribuir foi taxada como faladora e inconveniente. A confusão até ganhou uma frase dita por João que até hoje, mesmo programas após o ocorrido e da sua eliminação, eu me lembro. Em certo momento ele disse para Ivo do alto do seu pedestal que Pricylla ainda precisava escutar muito grito para aprender. Ele não diz claramente o que esse método de aprendizado ensinaria a ela, mas a julgar por seu comportamento só pode ser a ficar quieta, resumida a sua insignificância de ajudante dos chefes.

Algumas pessoas podem até usar a justificativa de que se trata de uma competição. De que os participantes estão ali competindo um contra o outro, mas essa justificativa cai por terra quando você vê programa após programa os homens se tratando com respeito, reconhecendo o talento um do outro enquanto as mulheres são sempre deixadas de lado, destratadas e nunca vistas como competidoras à altura. Em alguns momentos Ana Paula Padrão usa sabiamente sua posição de apresentadora para dar alguma narrativa ao programa da semana fazendo perguntas aos participantes.

“Quem é o melhor?”,  “Quem é o pior?”, “Quem vai chegar a final?”,  “Com quem você gostaria de chegar a final?”.

Preciso dizer em qual coluna os homens e mulheres ficam?… Ok, vou te ajudar caso você não esteja assistindo ou não se lembre. Os homens são sempre indicados pelos homens como os competidores mais fortes e adversários dignos de ser companhia em uma final e as mulheres são sempre as mais fracas do grupo e que deveriam ser eliminadas. SEMPRE!

É como se as mulheres fossem figuras meramente coadjuvantes ilustrativas e sem importância, em alguns momentos inexistentes. Como quando Ivo e Dario – sim, o queridinho Dario, precisaram desossar um cordeiro e perderam parte da prova por simplesmente ignorar os comentários de Dayse, a única a entender a ordem como deveria ser feito. O machismo neste episódio ficou ainda mais evidente quando Ivo, que era o capitão da equipe, mandou a Dayse varrer o chão e depois em um dos vários depoimentos do dia disse que trabalhar com mulheres era mais delicado por que elas são mais frágeis. Porem, não tem problema nenhum em trabalhar com elas. Um santo, não é mesmo?

A repercussão na internet foi grande e a resposta de Ivo tão ridícula quanto à de qualquer pessoa que não quer se desculpar, mas é obrigada pra não ficar mais feio. Quando alguém te ofende e começa a desculpa com “desculpe se…”, SE e não POR ofender. E sim, sou mulher e me senti ofendida pra cacete e pela terceira vez só pelo Ivo. Vai vendo! Só que para mim, que estou vendo de fora é bem mais fácil, posso me posicionar tranquilamente, agora a posição de Dayse é a que mais me afeta, como mulher e telespectadora.

A situação dela é um reflexo do que toda mulher passa em um ambiente de trabalho. A de ser subestimada por seus colegas por ser mulher e mesmo assim precisar continuar ali, entre eles e contra as forças criadas contra ela ao mesmo tempo em que os seus superiores, aqui no caso Paola, Fogaça e Jacquin não conseguem enxergar ou preferem não enxergar a dinâmica problemática que está acontecendo diante dos seus olhos.

A postura de Dayse, que tem uma personalidade mais descontraída, por enquanto foi de se manter focada, de desviar do chorume machista dos três homens que ainda estavam na competição e isso é bem compreensível. Mostrar a que veio também é uma forma de resposta. Problema é que após a saída de Fádia, que inocentemente se colocou na reta por Dario, que certamente não devolveria a cortesia, Dayse se tornou a única mulher e no episódio desta terça o alvo de Dario e Marcelo.

Paola respondeu em seu perfil no twitter sobre o machismo no programa e disse que quando a temporada foi gravada não escutou os comentários que vimos Marcelo e Dario vomitar na ultima noite, mas a edição que tem o conjunto da obra nas mãos escancarou o comportamento preconceituoso dos participantes com a colega. Que foi massacrada pelos dois por acharem que são os únicos que podem e DEVEM chegar a final, mas é tão talentosa quanto eles. A força para desacreditar Dayse foi tão grande que os dois chegaram a duvidar do trio Paola, Fogaça e Jacquin  quando o prato dela foi elogiado.

A edição está caprichando em revelar e jogar na cara dos espectadores a personalidade mesquinha, preconceituosa e atrasada de alguns dos chefs que escolheram para competir pelo prêmio de melhor profissional do Brasil. Ela está escancarando a feiura com que as mulheres são tratadas na cozinha profissional e deixando a cargo do publico julgar ou não os participantes. Pode ser problemático lavar as mãos quanto ao comportamento dos homens do programa, mas pode no fim ser bem positivo a não tentativa de esconder essa realidade tão triste.

Foi um episódio difícil de assistir, tanto que quando Dayse ganhou a prova de eliminação e conseguiu uma vaga na semifinal a internet em peso passou a torcer por ela.  A temporada já está com um gosto meio amargo e apenas uma vitória dela, que tem total possibilidade e capacidade de ganhar, para que não fique a sensação de que dedicamos nosso tempo a ver mais uma vez o machismo ser premiado.

Go Dayse!

 

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