Fear The Walking Dead estreou com uma difícil, quase impossível missão, que era de co-existir no mesmo universo de The Walking Dead, contar parte não contada da sua história e manter uma identidade própria, com a ordem de nunca, nunca mesmo, cruzar seu caminho. Comparações já eram certas e os narizes torcidos dos fãs de sua irmã mais velha também.

De modo perigoso para qualquer série um hype foi criado em volta do derivado de TWD, tanto que antes mesmo da primeira temporada estrear uma segunda já estava confirmada. Ou a série seria um sucesso, ou seria um sucesso, fracasso não seria uma opção. E foi então que a série estreou e dividiu opiniões, fãs que esperavam uma irmã gêmea de TWD se decepcionaram, os que queriam uma boa história no mesmo universo gostaram. Esta pessoa que lhes escreve se encaixa no segundo grupo. A primeira temporada é incrível, tem um dos melhores episódios pilotos que já vi na minha longa vida serialistica.

Saber no que aquele mundo tão normalmente problemático, de dificuldades tão cotidianas que nada tem a ver com carregar uma besta contra walkers se transformaria fez com que a experiência de assistir a primeira temporada de Fear The Walking Dead fosse ainda melhor e especial. É como se nós, os expectadores tivéssemos nas mãos um segredo que poderia mudar o curso da desgraça que estava se desenhando. Só nós sabíamos que aquelas anomalias eram o prenuncio, o inicio do apocalipse que acabaria com tudo. E o roteiro dos seis episódios é bom em criar uma tensão perfeitamente distribuída conforme a sociedade vai deixando de existir para cair no caos do inicio de The Walking Dead. É trágico e meio fascinante ver a destruição das estruturas do que nos mantem minimamente em ordem de um dia para o outro.

Porem a segunda temporada veio e o ritmo não conseguiu se sustentar naquele amontoado de personagens perdidos e de carisma limitado. A decisão de levá-los para alto mar no inicio da temporada com certeza foi o maior erro de roteiro que poderiam ter cometido. A sensação de perigo da primeira temporada era um dos ponto positivos da série, um surto, um apocalipse zumbi acontecendo no centro de Los Angeles engradecia a história e ajudava a diferenciar Fear de sua irmã mais velha que sempre se afastou dos centros urbanos. A menos que os personagens enfrentassem monstros marinhos transformados, ai sim seria bizarramente legal. O ambiente limitado também impediu com que os personagens evoluíssem e logo pessoas que andam em um mundo virado do avesso sem carregar pelo menos uma faca começou a me irritar profundamente. De pessoas despreparadas para pessoas burras, a história começou a desandar de um jeito que voltar a terra firme não foi capaz de consertar.

As minhas expectativas para  a terceira temporada já nem existiam mais e o meu amor por esse universo apocalíptico estava bem abalado depois da sétima temporada de The Walking Dead, que de tantas voltas atrás do próprio rabo me deixou cansada. Só que no ultimo domingo a série fez sua estreia dupla e me vi presa com a cara na tela do computador, vendo algo tão bom quanto a primeira temporada e tão bom quanto The Walking Dead deveria estar sendo.

Separar os núcleos tinha sido um dos pontos de contribuição para a queda na segunda temporada. Era preciso juntar personagens sem que pra isso uma temporada inteira fosse gasta, apresentar novos personagens e locações, já que estar em um continua road trip é a salvação em um mundo sem leis e segurança. Mas mais que isso, era urgente que aqueles personagens que acompanhamos desde a primeira temporada começassem a mudar, se adaptar, mostrar novas camadas, capacidades e que tivessem objetivos, principalmente o de sobreviver. Eles precisavam de uma força ainda não mostrada.

Esperei que tudo isso acontecesse nos primeiros episódios da temporada, que levasse algum tempo, mas fui surpreendida e aconteceu nos dois primeiros episódios da temporada. E de uma forma perfeita e totalmente crível. Madison, Travis, Alicia, Nick e Luciana são jogados no meio de um ambiente novo e reagem a ele de forma feroz, como se estivessem acordando para esse mundo que exige que você brigue para ficar vivo. Madison que desde a primeira temporada era a melhor personagem, a mais racional e inteligente se firmou como a líder dos sobreviventes e da série, colocando para fora toda aquela iniciativa comedida. O objetivo da série era mostrar sobreviventes parecidos comigo e com você e não tão heroicos como TWD que tem um xerife como protagonista, mas se em um grupo ninguém se destaca todos acabam ficando esquecíveis.

Ai Fear The Walking Dead teve coragem de fazer algo que The Walking Dead poderia copiar. A série teve coragem de matar um dos seus protagonistas no segundo episódio sem usar qualquer artificio narrativo que pudesse deixar duvidas e manter o publico interessado, melhor, covardemente preso. Como bônus usaram o primeiro episódio para melhorá-lo, desenvolver sua história, pra quando ele morresse não ficasse gratuito. Fez sentido, ainda mais se pensarmos nas consequências que sua morte deixaram nos que ficaram, que já foi vista no mesmo episódio, sem precisar de uma temporada inteira para qualquer mudança de atitude.

Era preciso aumentar o elenco nessa temporada, dar coadjuvantes aos protagonistas e acertaram em cheio dessa vez. A família Clark esbarrou com um novo grupo muito diferente daquele da segunda temporada, que não tinha nada a acrescentar a ela. Dessa vez o conflito foi intenso logo de cara, rivalidades foram criadas no primeiro encontro, antagonistas apresentados e a maneira como o roteiro forçou os dois grupos a ficarem juntos deu um grande folego a história. Tirando a inexistência de personagens femininas de destaque, a nova comunidade pareceu interessante a primeira vista e a sugestão de um terceiro grupo deixou aquela sensação de perigo no ar, de que algo ainda maior pode estar a espreita que tanto gostamos.

Bastou dois episódios muito bem escritos e desenvolvidos, com personagens interessantes para Fear The Walking Dead dar um salto na sua história e identidade. Bastou dois episódios para me fazer desistir de largar a série e acreditar que ela tem salvação, que sabe contar uma boa história, que a primeira temporada não foi por acaso, não foi sem querer, que a segunda temporada sim, foi uma curva errada. Agora espero não estar gastando minha fé na série errada.

 

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