Quando Girls estreou há seis anos foi um choque para muita gente. Uma protagonista feminina, gorda, com uma vida sexua ativa e sem nenhum pudor de mostrar o corpo cheio de curvas e fora do “padrão”. Ainda mais quando Lena Dunham gritou para o mundo que sua criação representava grande parte da nova geração de mulheres, ninguém estava preparado. Girls dividiu opiniões, muitos torceram o nariz, muitos abraçaram a representatividade, mas todo mundo falou sobre a série que estava mostrando a vida de quatro garotas de maneira real e nada, absolutamente nada romântica.

“Ninguém quer ver uma mulher gorda de biquíni na TV”, “Por que Lena Dunham precisa aparecer nua?”, eram frases assim que povoavam as redes sociais após cada episódio e isso foi nada mais do que a oportunidade que Lena Duham precisava para falar sobre o assunto, expor os preconceitos enraizados na nossa existência e também sua visão como mulher e como uma mulher gorda do que é e deve ser normal. Ela expôs seu corpo de forma tão natural ao não só criar, mas interpretar a protagonista Hannah, que foi impossível não entender e abraçar o que ela estava nos mostrando, explicando. Foi e ainda é inspirador!

“Girls vai transformar a nova geração de mulheres em seres egoístas e vazias”, foi esse o tipo de pensamento de boa parte de quem criticou Girls sem assistir, ou, sem tentar entender que não é egoismo focar em si mesma, se ver como um individuo e reagir a nova sociedade e ao lugar que as mulheres devem ocupar nela. Precisamos conhecer, respeitar e melhorarmos a nós mesmas antes de contribuir como um coletivo e diferente de tantas outras séries, Girls mostrou mulheres que preferiam o ganho próprio a interiorizar sua natureza para não chocar ou atrapalhar quem não estava preparado para isso. Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna viveram intensamente os seis primeiros anos da vida adulta, errando, aprendendo com os erros, insistindo em alguns, se melhorando ou deixando que cada tropeço levasse o melhor delas em alguns momentos. Assim como todos nós fazemos, como nós vivemos. Lena não teve medo de fincar os pés na realidade ao retratar a atual geração em suas protagonistas.

Ela também não teve medo e fez questão de falar sobre assuntos polêmicos e tão rotineiros na vida de qualquer mulher. Como no terceiro episódio da sexta temporada em que falou de assedio moral e sexual de forma tão clara e quase didática. O episódio American Bitch está com certeza na lista de melhores episódios da série, que sempre apostou em participações especiais, mas que acertou em cheio na escalação de Matthew Rhys(The Americans) como um escritor que usava sua carreira e status para atrair garotas em situação inferior com o discurso de que seu interesse era um presente, um privilégio para elas. O roteiro deste episódio é tão perfeito que em vinte e cinco minutos o assunto foi revelado, discutido e mostrado na pratica diante dos nossos olhos de forma magistral. Os diálogos entre Hannah e o escritor, que até então era um dos seus heróis, são tão bem escritos e reais que até doem, eles passam a mensagem de que vítimas de assédio ou abuso não ganham nada e de como um assediador pode ser sedutor sem cair em nenhum clichê. Simples, direto e necessário, American Bitch já é um dos melhores episódios de 2017 ao lado de “Heartbreaker” de Sweet Vicious.

Com altos e baixos, mais altos que baixos, a ultima temporada de Girls com certeza foi o auge da série. Me peguei apaixonada pela série no primeiro episódio dessa reta final e esperei e aproveitei cada um como não me lembro de ter feito nas temporadas anteriores. Talvez pela gritante evolução da série, mas também das personagens, principalmente Hannah, que sempre foi nossa guia e inegavelmente chegou aqui muito diferente de como começou. Era hora de dar um desfecho, um encerramento a caminhada das quatro amigas, encaminha-las de vez ao mundo adulto e o time de Girls composto por Lena Dunham, Judy Apatow e Jenni Konner tomaram a decisão criativa de preparar um final real a cada história, a cada personagem.

Fugindo do tradicional Girls ganhou de vez meu coração como uma das melhores e mais importantes séries da TV e da vida de qualquer mulher quando jogou nas nossas caras que a protagonista não precisava de um Mr. Big para ter um final pleno e satisfatório, que na maioria das vezes amores são eternos enquanto duram, que por mais marcantes, profundos e muitas vezes certos, eles tem data de validade. Mais que isso, que amizades mudam, algumas se fortalecem mesmo com a distancia, outras perdem a força com o passar dos anos até sumir, que está tudo bem seguir caminhos diferentes ou até opostos. Exatamente como na vida real.

O final poderia ter sido lindo, com Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna de mãos dadas por Nova Yorke, com a cidade aos seus pés, mas foi exatamente o contrário. Foi um retrato da vida real das jovens mulheres de hoje em dia, que aprenderam a sonhar um sonho novo a cada semana, a se melhorar nos detalhes, a arriscar um novo fracasso ou um novo sucesso mesmo morrendo de medo, a deixar sua marca no mundo não importando o tamanho dela. Feminista até o fim Lena deu um final a Hannah que muitos com certeza acharão hipócrita, mas é claro, são essas pessoas que como disse lá em cima criticam sem assistir, sem tentar entender. Ela foi a personificação do que deve ser o novo normal, uma mulher que diante de uma grande reviravolta tem o direito de decidir seu próprio destino. E assim vimos Hannah passando de garota imatura em busca de algo a mais, a mulher, a adulta dona da própria vida e mãe. A decisão foi dela e de mais ninguém, como em um mundo ideal seria.

GirlsO oitavo episódio resolveu Hannah e Adam, fechou aquele capitulo mal resolvido que poderia se transformar em um eterno “e se” na vida deles e sem saber vimos ali o excêntrico carpinteiro/ator pela ultima vez. O nono episódio pode ser considerado o final, ali oitenta por cento dos personagens ficaram e deram seu adeus, focado acertadamente nas quatro protagonistas que acompanhamos por seis anos foi a hora de pedir desculpas, reafirmar carinho, dizer adeus, dar um passo a frente mesmo que no escuro. O décimo veio com cara de começo de temporada, de recomeço, para mostrar que os perrengues e buscas na vida das protagonistas só estava mudando de endereço e de importância.  Que não é por que Hannah decidiu ter um filho que ela teria todas as resposta, que Marnie saberia o que fazer da vida só por que chegou aos trinta. Afinal só amadurecemos quando estamos diante do obstaculo e não antes.

Girls foi uma série corajosa que muito longe de ser perfeita não teve medo de mostrar a cara, o corpo, de criar personagens com lados fascinantes e igualmente feios, de colocar mulheres na linha de frente e dizer para o mundo que lidem com nossas paixões, teimosia, habilidade de nos adaptar e  descartar o que não nos serve e com o nosso protagonismo,

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Obrigada, Girls! Obrigada Lena Dunham, mal posso esperar pela próxima!

PS: E obrigada por colocar Adam Driver em nossas vidas!

 

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