Na Nova York da década de 70, em meio à prostituição, violência e as drogas, o mercado pornô dá os seus primeiros passos e crescendo. Os irmãos gêmeos Vincent (James Franco) e Frank Martino (James Franco) então são envolvidos nesse universo e com a Máfia, em paralelo com a experiente e independente prostituta de Times Square Eileen “Candy” Merrell (Maggie Gyllenhaal), que vê na indústria pornô uma “saída” para a insatisfação com a sua carreira e os rumos dela. No meio de tudo ainda teremos a máfia investindo em “casas de massagem”.

A policia corrupta contratada pela máfia para impulsionar prostitutas de rua á trabalharem lá, as investigações de uma repórter sobre a indústria do sexo, os cafetões e seus relacionamentos com as suas prostitutas, o cotidiano das profissionais da indústria pornô e do sexo nesse ambiente e as pessoas ditas como “comum” que flutuam por esse cenário. Você provavelmente e infelizmente, não deve ter assistido The Deuce e é provável que nem tenha ouvido falar sobre ela, o que é uma tremenda injustiça já que The Deuce é simplesmente uma das melhores series de 2017. E eu vou listar aqui alguns motivos de porque essa série é tão maravilhosa e merece ser assistida.

DAVID SIMON

David Simon é o criador e showrunner de The Deuce juntamente com George Pelecanos (um autor e roteirista americano que é um parceiro habitual de Simon e já trabalhou com ele em The Wire e Treme). Se você ainda não conhece David Simon ou o seu trabalho, o que infelizmente é muito provável, essa é a sua chance de conhecer e de se apaixonar. Pode parecer exagero, mas não é, David Simon é simplesmente uma das mentes mais geniais, criativas, brilhantes e talentosas da televisão americana, talvez até a mais. David começou a sua carreira como jornalista, repórter policial, começou á escrever livros e logo em seguida partiu para a televisão.

O seu livro Homicide: A Year on the Killing Streets inspirou a excelente série de TV Homicide: Life on the Street, um marco pra TV pela sua qualidade narrativa e pelo seu realismo, David também trabalhou na série como roteirista, consultor e produtor. Paralelamente ele chegou á escrever um episódio para a série Nova York Contra o Crime (NYPD Blue), simplesmente uma das series mais lendárias e importantes pra televisão americana. Com o passar do tempo, sua carreira na televisão foi apenas crescendo e tomando caminhos mais autorais. Ele junto com o roteirista David Mills adaptou The Corner: A Year in the Life of an Inner-City Neighborhood, que ele escreveu junto com Ed Burns (um ex–policial, que se tornou professor, depois se tornou novelista e que formou uma das mais importantes parcerias da carreira de Simon como veremos á seguir).  Então o livro The Corner: A Year in the Life of an Inner-City Neighborhood se tornou a excelente minissérie The Corner, que ganhou o Emmy quando foi exibida e foi o primeiro trabalho de David Simon para a HBO, parceria essa que dura até hoje. Após The Corner, David Simon criou para a HBO a sua obra–prima e uma das melhores séries de TV de todos os tempos, um dos melhores produtos do audiovisual de todos os tempos: a fantástica The Wire.

Retratando temas que ele já havia tocado em The Corner, The Wire resumidamente fala sobre a cidade de Baltimore passando por vários temas ao redor dela (como trafico de drogas, o governo, educação, escolas, a mídia, os cais, e por ai vai) para fazer um grande painel da cidade e o mais importante um grande painel humano daquelas pessoas que lá habitam. The Wire foi a reunião de Simon com os seus parceiros habituais: Ed Burns, David Mills, George Pelecanos, além de muitos outros roteiristas. Adorada pela critica e ignorada por publico ou premiações, The Wire foi sendo descoberta pelas pessoas depois de ser exibida e hoje é valorizada e recebe o respeito que merece. Após The Wire, David Simon seguiu uma carreira rica na HBO participando da criação de Generation Kill, uma das melhores minisséries de todos os tempos, da ótima série Treme e da excelente minissérie Show Me a Hero. Poucos roteiristas e showrunners podem se orgulhar de uma carreira tão prolifica, rica e estável na sua qualidade quanto a de David Simon, e isso é muito impressionante. Agora ele repete a sua parceria com a HBO fazendo The Deuce.

Um dos traços mais marcantes do trabalho de David Simon são os seus diálogos naturais, realistas e a sua abordagem jornalística ao escrever narrativas. Sua autenticidade e respeito pela sua obra também é importante, ele não subestimada o publico e nem gosta de simplificar para ele, ele não acredita em tomar caminhos mais fáceis ou fazer o possível para agradar os telespectadores e dar o que eles querem, ele é convicto sempre nos seus temas e nas suas historias. As obras de David Simon sempre tem um tema social muito forte, são narrativas urbanas na maioria das vezes cheias de critica social e fazendo um retrato cru sobre o nosso sistema sem nunca soar didático, pedante ou propagandista. Além disso dramaturgicamente o jeito que ele explora e vai desenvolvendo vários personagens e núcleos para fazer um grande painel de algo (em The Deuce por exemplo é a Nova York dos anos 70 no cenário da prostituição e do começo do cinema pornô) é simplesmente perfeito, cada personagem ou historia tem o seu valor e a sua riqueza, os paralelos narrativos são impressionantes, o desenvolvimento e a riqueza presente nisso só faz com que tanto os seus personagens se tornem memoráveis quanto o universo que ele cria, que é sempre o grande protagonista de suas historias. The Deuce por exemplo nesse sentido lembra muito um filme do Robert Altman como Nashville (1975) ou Short Cuts (1993) nesse sentindo de fazer um grande painel ou um conjunto entre os personagens, e é tão bem–sucedida quanto nesse aspecto. É mais uma obra espetacular de um gênio incansável. E ainda bem.

MAGGIE GYLLENHAAL

The Deuce não tem um protagonista central que chama toda a atenção e toda a narrativa pra si. Mas fica claro que os protagonistas da série são os irmãos gêmeos Frankie e Vincent Martino (James Franco) e a prostituta Eileen “Candy” Merrell (Maggie Gyllenhaal), que tem uma história própria tão importante quanto indo em paralela á deles mostrando a sua insatisfação cada vez maior com a prostituição de rua, a sua falta de vontade em trabalhar em “casas de massagem” e a sua entrada na indústria pornô. Ambos os atores são produtores executivos da série. Falarei mais sobre James Franco depois, mas ele está ótimo e é o maior nome da série antes de Gyllenhaal, mas não tem como negar que Maggie Gyllenhaal como a sua co–protagonista rouba a cena, toma a série pra si e é o grande chamariz dela, conseguindo fazer isso mas ao mesmo tempo deixando que a série se torne exclusiva dela ou apenas resumida á ela. Sua Eileen ou Candy é uma personagem forte, comovente, cheia de dilemas, nuances e complexidades.

E Maggie Gyllenhaal consegue compor todos eles com perfeição. Ela já havia dado uma atuação espetacular na minissérie The Honourable Woman, e apesar de ser uma atriz já indicada ao Oscar e conhecida do grande publico por Batman: O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, Maggie é uma atriz espetacular e subestimada com grandes atuações em filmes como Secretária (2002) e Sherrybaby (2006). Por isso é muito bom ver uma grande atriz como essa recebendo um papel á altura do seu talento, e se houver alguma justiça no mundo ela vai ser lembrada em premiações ano que vem.

O ELENCO, OS PERSONAGENS E O CONJUNTO

É impressionante a capacidade que David Simon tem em não fazer um único estudo de personagem, mas sim vários estudos de personagens ao mesmo examinando cada um deles e os desenvolvendo com maestria. Também é impressionante como esse elenco não tem uma atuação ruim. Entre os destaques estão Dominique Fishback como a doce e vulnerável Darlene, o ótimo Lawrence Gillard Jr. (que já havia feito The Wire) como o amável e educado policial Chris Aston, Gbenga Akinnagbe como o intenso e sombrio cafetão Larry Brown e o espetacular Gary Carr, como o bem–educado mas assustador cafetão e cruel cafetão C.C., talvez um dos maiores destaques da série. Margarita Levieva como a estudante Abby é uma das personagens mais convencionais da série, mas mesmo assim ela brilha em tela, e David Krumholtz rouba todas as cenas que aparece como um diretor de filmes adultos com algum pensamento artístico. Pernell Walker que simplesmente está comovente no ultimo episódio da série que mostra o destino cruel da sua personagem, Method Man, Emily Meade, Jaime Neumann, Mustafa Shakir, Zoe Kazan e até Ralph Maccio dando uma volta por cima na sua carreira fazendo um grande retorno, todos brilham. E ainda temos os parceiros habituais de David Simon de outras produções como Chris Bauer, Michael Kostroff, Chris Coy e Anwan Glover, além de uma participação especial do ótimo Clarke Peters no ultimo episodio.

E fechando tudo isso temos o grande nome da série e o ator mais conhecido, James Franco, se engana quem vai assistir a série pensando que ela é toda voltada nele, como na maioria dos trabalhos de David Simon, The Deuce é uma série de “conjunto” ou um “ensemble” como falam nos Estados Unidos. Os gêmeos Frankie e Vincent feitos por James Franco são como o personagem de Jimmy McNulty (Domic Wiest) em The Wire, um bom personagem central cercado por vários personagens chamativos e interessantes. James Franco é ótimo em diferenciar os dois gêmeos e dar características particulares para ambos. Além disso James Franco também mostra os seus outros talentos dirigindo dois episódios da série e isso talvez ajude o fato de nunca parecer que os irmãos Martino estão dominando a série, e é isso que faz essa uma atuação perfeita, você fica feliz quando vê James Franco na série mas também não sente falta dele quando ele não está nela.

A RECONSTITUIÇÃO DE ÉPOCA

Bem, nesse aspecto nem precisa se falar muito. Se você já assistiu Roma, Band of Brothers, Game of Thrones, The Pacific, John Adams, Boardwalk Empire, Deadowood e outras séries de época da HBO ou que como Game of Thrones exigem um valor de produção para se criar um universo próprio, você sabe que nisso ela nunca falha e sempre prima pela qualidade. A ambientação da série da Nova York dos anos 70 é impecável, seja pela ambientação, o cenário, a maquiagem, o figurino, pelo comportamento e pelo contexto histórico, tudo isso é perfeito,  mas o valor de produção da série é impressionante. A Times Square da década de 70 por exemplo é perfeita e a série conseguiu com essa reconstituição de época tão bem feita imergir o seu público completamente naquela época e naquele universo.

A ABORDAGEM

The Deuce é uma série sobre exploração e sobre sexo, por isso seria muito fácil ela fazer uma exploração desnecessária das personagens femininas com sexualização, se tornando uma série fetichista ou de mal gosto nesse sentido muitas vezes pesando a mão na abordagem das personagens femininas ou de cenas de nudez e de sexo, mas felizmente não é isso o que acontece nessa série de jeito nenhum na minha opinião pelo menos. Talvez por ter como diretora de dois episódios (o piloto e o ultimo) a excelente Michelle MacLaren (um dos melhores nomes em direção na TV hoje) e ter outras diretoras mulheres como Uta Briesewitz e Roxann Dawson dirigindo outros episódios a série foge desse tom exploratório, você pode o esforço de se abordar as coisas com o bom gosto devido e no tom certo para não fazer uma exploração desnecessário do corpo feminino e nunca perder o contexto e soar desnecessário.

A nudez e as cenas de sexo na série são completamente justificáveis, bem abordadas e tem um contexto, e isso deve principalmente por esse olhar feminino na direção e nos bastidores. Qualquer coisa que ameace ser sexualizada é sensual até que você note o cenário que essa cena se passa, os barulhos do ambiente, as relações entre aquelas pessoas e o quanto aquilo não passa de uma transação comercial fria e sem sentimento, além de ser mostrando todo desconforto da situação e ter um olhar critico pra isso. E muito disso se deve á esse olhar e esse cuidado que a série teve em colocar mulheres e pessoas que tivessem a sensibilidade e o papel de fala suficiente para retratar isso e ajudar pra que isso não caísse no mal gosto. E sempre com extrema competência.

E ai foram convencidos? Espero que sim e espero que vocês possam dar uma chance pra essa série maravilhosa que merece ser mais conhecida.

 

 

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